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Europa pressiona carrinhas ‘made in Portugal’

Stellantis Mangualde produz 91% dos ligeiros de mercadorias do país, segmento onde os motores a combustão são cruciais e a descarbonização é mais difícil de fazer.

Andam por todo o lado. Os construtores nacionais já estão em modo ‘depois não digam que não avisámos’. Entregam mercadorias e encomendas. Pertencem a prestadores de serviços e a grandes empresas. Têm de ter uma autonomia alargada e capacidade para transportar carga pesada. São cruciais para a economia nacional. E continuam a deslocar-se a gasolina e gasóleo.
Os motores a combustão continuam a ser reis neste segmento, mas as regras europeias estão a complicar a vida aos ligeiros de mercadorias.
São as multas a partir de 2027 para os construtores automóveis que não cumpram as metas de descarbonização, mas também o fim do motor a combustão a partir de 2035 na União Europeia.
No meio do puzzle burocrático de Bruxelas, que continua a enviar sinais contraditórios à indústria automóvel europeia que caminha para a descarbonização com a concorrência chinesa a apertar, há uma fábrica no distrito de Viseu que vê a tempestade a aproximar-se.
“É uma preocupação. Os clientes querem os carros”, disse ao JE o diretor-geral da Stellantis Portugal, a dona da segunda maior fábrica automóvel em Portugal, localizada em Mangualde.
“Temos de garantir que o efeito que paira sobre as nossas cabeças de multas pesadíssimas a partir de 2027 deixa de existir”, segundo Pedro Lazarino.
“Se em 2027 tivermos efetivamente multas, temos de repensar a forma como produzimos comerciais de combustão porque são multas incomportáveis e vamos ter de incorporar nos nossos preços”, acrescenta o gestor.
Num cenário mais crítico, de cerco total aos motores a combustão, a Stellantis tem um Plano B: ““A fábrica de Mangualde produz as mesmas versões para passageiros que tem procura crescente no mercado europeu. Felizmente, Mangualde está preparado para isso. E também já está a produzir carros elétricos, é um grande futuro que poderemos ter para Mangualde”, defendeu.
Apesar dos esforços de descarbonização, o gasóleo ainda é rei neste segmento. Nas marcas produzidas em Mangualde, o peso do gasóleo é superior a 90%: Citroen (91%), Fiat (93%), Peugeot (95%), Opel (92%), segundo os dados relativos a 2025.
A Stellantis Mangualde atingiu uma produção recorde em 2025, com 91.662 unidades produzidas, uma subida de 7% face a 2024. A companhia pesa 27% na produção nacional total. Das suas linhas saem 61.109 unidades de ligeiros de mercadorias (67% da produção da fábrica), sendo responsável por 91% da produção total deste segmento em Portugal.
Em 2024, a fábrica arrancou com a produção de viaturas 100% elétricas, tendo obrigado a uma modernização da unidade industrial, incluindo uma nova linha de montagem para produzir as versões de passageiros e comerciais ligeiros..França é o seu maior mercado de exportação com 21%, seguindo-se Espanha com 17% e Itália com 14%. O mercado da UE pesa 67%, com o total da Europa a valer 84%.
O Governo tem de defender o setor automóvel nacional junto da União Europeia, exigiu esta semana a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), considerando que chegou a hora de defender o setor para não lamentar desinvestimentos no futuro, isto é, encerramentos de fábricas cruciais para o país.
“Sendo Portugal um país produtor, com mais de 340 mil unidades, esta preocupação devia ser central para o Governo português”, defendeu o presidente da ACAP. “Esperemos que o Governo português faça lóbi e que não se comece só a preocupar-se quando houver ameaças do fecho” de fábricas, disse Sérgio Ribeiro, tendo destacado precisamente o risco para os ligeiros comerciais.

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