As companhias aéreas low-cost não vivem só de vender viagens. É certo que a venda de bilhetes é importante, mas as receitas adicionais são cruciais para o negócio. Agora, Bruxelas quer alterar as regras do jogo, colocando pressão sobre os lucros das companhias que revolucionaram as viagens na Europa. Viagens mais baratas ou bagagem de bordo grátis? Esta é a pergunta que as companhias estão a fazer neste momento junto das instituições europeias. E os consumidores podem vir a ser prejudicados com uma subida dos preços dos bilhetes.
O Parlamento Europeu propôs mudanças nas regras, para ser possível levar uma mala de sete quilos, mais um saco extra ou computador… tudo grátis, aplicável a todas as companhias.
Para começar, este é um negócio muito valioso: as companhias europeias arrecadaram 16 mil milhões de dólares (mais de 13 mil milhões de euros) em receitas adicionais, com 60% deste valor a ser arrecadada pelas companhias low-cost.
Entre as companhias que mais arrecadam com receitas adicionais encontram-se a Wizz Air (peso de 45% destas receitas na faturação) ou a Easyjet (peso de 39%), segundo os dados da IdeaWorks.
É certo que estes valores incluem vendas de comida ou reserva de lugar, com a consultora a estimar que as receitas de bagagens pesam menos de um quinto nas receitas das companhias low-cost.
Jay Sorensen da consultora IdeaWorks avisa que se as transportadoras low-cost tiverem de subir preços, as companhias de bandeira vão seguir o exemplo. “As transportadoras globais só têm preços razoáveis nas rotas europeias porque têm a concorrência da Easyjey, Wizz e Ryanair. A Europa tem sorte de as ter; caso contrário, estariam-se a queixar dos preços muito altos”, disse ao “Financial Times”.
A reforma da lei EU261 tem estado a ser discutida desde 2013. Qualquer avanço precisa de ser negociada com os estados-membros para ser aprovada e passar a legislação.
A Easyjet aponta que quase 40% dos seus passageiros paga apenas o bilhete para o voo, isto é, sem acrescentar malas. A companhia britânica tem uma política de levar uma mala gratuita para colocar debaixo do banco. “As propostas não funcionam porque não existe simplesmente espaço suficiente a bordo para todos os clientes trazerem duas malas. Se for implementada, isto vai resultar em atrasos de voos”, disse fonte oficial da Easyjet ao JE. E dá o exemplo de um A320: com capacidade para 186 passageiros, tem espaço para apenas 90 malas nos compartimentos a bordo.
Várias associações que representam companhias aéreas já criticaram a intenção do Parlamento Europeu, como as europeias A4E e ERA e a global IATA: “As propostas sobre as bagagens de bordo foram desenvolvidas sem qualquer análise do impacto das operações aéreas, como a capacidade limitada, o potencial para criar atrasos” a par de “aviões mais pesados com mais emissões”.
As companhias pedem mais “realismo” ao Parlamento Europeu. Nas suas contas, a versão atual da lei EU261 já custa às transportadoras e passageiros mais de oito mil milhões de euros por ano.
Já Pedro Castro da SkyExpert, aplaude a intenção do Parlamento Europeu. “Nenhum modelo de negócio, em nenhum setor, pode assentar numa exploração ilimitada do princípio da liberdade económica e dos direitos dos consumidores. Quem o fizer terá de contar, mais cedo ou mais tarde, com uma reação do legislador e é bom que não faça depender a sua rentabilidade dessa prática”, disse ao JE.
O especialista em aviação acredita que as companhias vão adaptar-se com vários instrumentos ao seu dispor:“gestão de inventário, criação de novos produtos, diferenciação comercial. Esta lei terá ainda um efeito colateral relevante: reduzirá a diferenciação entre a experiência de bordo das companhias tradicionais e das de baixo custo, obrigando as primeiras a repensar um dos poucos fatores onde ainda mantinham uma vantagem clara. E isso, também, é concorrência a funcionar”.
Bagagem grátis ameaça negócio das companhias low-cost
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Tornar bagagens de bordo grátis ameaça provocar atrasos e não há espaço para todos. Low-cost podem vir a subir preços, o que se vai arrastar a todo o mercado, penalizando consumidores.