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‘Sell-off’ do Bitcoin e da IA arrastam ouro

Após consecutivos máximos históricos, esta semana ficou marcada por perdas relevantes nos índices, evidenciando fragilidades na IA.

A separação do trigo do joio na IA teve início há vários meses e começa a ameaçar o atual bull market, que não pode ser sustentado apenas pela rotação setorial. Embora, ainda esta semana, os ativos mais defensivos e value tenham valorizado, refletindo-se nos máximos do Dow Jones, esse movimento será incapaz de suportar os mercados caso a tecnologia continue a desvalorizar, uma vez que foi precisamente o setor tecnológico, em particular a IA, que impulsionou os mercados.
O setor da IA evidencia cada vez mais divergências. A Alphabet tem beneficiado das perspetivas de um forte dinamismo do ecossistema Gemini e da capacidade para ganhar quota de mercado, reforçando a confiança dos investidores quanto ao potencial de crescimento das receitas. Em sentido contrário, a Microsoft evidencia cada vez mais as preocupações do mercado com o aumento do investimento em data centers e infraestruturas de IA, pressionando as expectativas de monetização, pelo menos no curto prazo. Assim, há também uma rotação de carteiras no setor tecnológico e maior exigência quanto à materialização de lucros, penalizando empresas com maior intensidade de investimento. Por isso, a Alphabet é a big tech que apresenta melhor desempenho no último ano, com uma valorização de mais de 100% e novos máximos históricos no início da semana, valendo quase 4 biliões de dólares (3,4 biliões de euros), perto da Nvidia e da Apple, enquanto a Microsoft tem perdido terreno.
Desde o final do verão, o mercado tem evidenciado uma divergência crescente dentro do setor da IA, penalizando empresas intensivas em capital e com fraca geração de cash-flow presente, enquanto premeia modelos capazes de monetizar a IA de forma recorrente. Empresas como Oracle, AI pure plays e software “AI-wrapped”, dependentes de elevado investimento em infraestruturas e com monetização adiada, têm corrigido acentuadamente, apesar de os índices permanecerem próximos de máximos. A Bitcoin tem apresentado um comportamento semelhante, visto que, tal como essas empresas, não gera cash-flow, depende de entradas contínuas de capital e está avaliada com base em expectativas futuras. Num contexto em que os investidores passaram a privilegiar rendimentos presentes e menor intensidade de capital, estes ativos têm sido penalizados, enquanto hyperscalers como a Alphabet mostram maior resiliência.
Embora o ouro também tenha corrigido, valoriza quase 15% desde o início do ano. Com um historial de seis mil anos, trata-se de um ativo escasso que não pode ser “impresso”. Já a BTC perde quase 25% em 2026, apesar de, tal como o ouro, não gerar qualquer rendimento — apenas ganhos de capital —, tem apenas 15 anos de existência e, sendo uma tecnologia, é suscetível de se tornar obsoleta. A forte valorização recente do ouro atraiu investidores de retalho, muitos dos quais mantêm simultaneamente posições mais arrojadas, por exemplo em BTC, criptomoedas e empresas ligadas à IA, frequentemente com recurso a alavancagem. Sobretudo o meltdown da BTC e as sucessivas margins calls têm forçado à venda transversal de todas as posições em carteira, incluindo ouro, penalizando também o preço do metal amarelo.

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