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O desafio de fazer fusões de empresas num país que “idolatra” as PME

JE Advisory: “Consolidar para Crescer – O papel do M&A na competitividade” foi o tema da segundo pequeno-almoço JE Advisory com Maria Celeste Hagatong, Luís Todo Bom, Duarte Schmidt Lino, Francisco Alvim, João Nuno Palma e Tiago Geraldes.

Há boas perspetivas para o mercado transacional e as eleições legislativas, que se realizam domingo, continuam sem pesar demasiado sobre as decisões de investimento estrangeiro. É esta a opinião partilhada pela generalidade dos advogados, académicos, bancos promocional e de investimento e fundos de private equity que se reuniram esta quinta-feira na conferência “Consolidar para Crescer” organizada pelo Jornal Económico, no âmbito do projeto JE Advisory (assista ao vídeo através do QR Code nestas páginas).

A presidente do Banco Português de Fomento (BPF), Maria Celeste Hagatong, foi a keynote speaker, com uma intervenção onde revelou que a instituição tem contratados cerca de 900 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com as capitais de risco e diretamente, nos programas Consolidar e Startups. Maria Celeste Hagatong salientou que as fusões entre emopresas são essenciais para tornar o nosso tecido empresarial mais competitivo e que existem instrumentos para apoiar esses movimentos, embora haja ainda caminho por fazer.

“Gostava de ter visto este PRR ligado ao acesso destas empresas ao mercado de capitais. Isto não está no programa nem nos objetivos”, disse. Maria Celeste Hagatong.

Por seu turno, o professor universitário Luís Todo Bom, autor do “Manual de Gestão de Empresas Familiares”, apelou ao próximo ministro das Finanças para criar novos incentivos fiscais e financeiros, que acredita não estarem preparados para o contexto económico atual.

Luís Todo Bom criticou o que considera ser uma obsessão do país pelas Pequenas e Médias Empresas (PME), bem como o facto de se considerarem como empresas os pequenos negócios - como restaurantes, lojas e outros - que servem apenas para criar emprego para os seus donos. “Deviam estar no Ministério da Segurança Social e do Emprego e não no Ministério da Economia”, disse. O gestor, que nos anos 90 presidiu às fusões que deram origem ao grupo Portugal Telecom e que nos últimos anos se tem focado na área das empresas familiares, defendeu um sistema de incentivos para que as empresas avancem com fusões. “Só empresas com balanços reforçados, com rácios de autonomia financeira elevados, é que aguentam a pressão do desenvolvimento dos mercados internacionais (...). Devia ser um objetivo nacional: fazer crescer as empresas portuguesas”, defendeu, na sessão que se realizou esta quarta-feira no Hotel Intercontinental Lisbon.

Já Tiago Roquette Geraldes, head of Venture Capital & Private Equity da IMGA, acha que “houve um progresso enorme em dez anos” na disponibilidade de capital por causa do impacto do turismo no crescimento económico, do PRR e dos programas do BPF. “Esse capital existe e vai ser aplicado”, garantiu, confirmando que há bancos de investimento e boutiques financeiras à procura de oportunidades.

E antecipa que Portugal vá ter um modelo de junção de capital particular a institucional, como sucede em países como Espanha, Itália ou França. “Por toda a Europa, e patrocinado pela própria Comissão Europeia, já existem Organismos de Investimento Coletivo que vão buscar capital aos investidores particulares para fazerem os investimentos em private equity e venture capital – os ELTIFs”, lembrou.

Por sua vez, o vice-presidente do BCP afirmou que a descida das taxas de juro vai dar um novo fôlego ao M&A, cujas “perspetivas são positivas”. “Há muitas empresas que têm interesse em fazer a rotação do seu portefólio de ativos” e “tem vindo a acontecer muito isso no sector energético”, que tem ativos em desenvolvimento e em exploração, portanto “há muita procura”, referiu João Nuno Palma. Na sua opinião, é importante “perder o medo” de assinar parcerias com grandes empresas estrangeiras para se colmatar o gap de produtividade que existe no tecido empresarial.

Para o sócio e cocoordenador de Corporate M&A da PLMJ, Duarte Schmidt Lino, Portugal tem na prática um conjunto de incentivos para as empresas não crescerem, quando devia ser ao contrário, na sua opinião, concordando com a análise de Luís Todo Bom. Questionado sobre os sectores onde há mais potencial para consolidação, destacou áreas como a energia, a tecnologia e as infraestruturas, bem como o sector agrícola, que tem vindo a destacar-se com operações de alguma dimensão. “Já estamos a falar de montantes na ordem dos 200 a 300 milhões de euros, com alguma consolidação no sector agrícola. Há alguma consolidação nesse sector, é muito sofisticado e tem capital”, referiu.

O head of M&A da Howden Portugal também elencou o agroalimentar como um dos sectores que estão mais dinâmicos no mercado de M&A, à semelhança do imobiliário, energias renováveis, TI, telecomunicações e biotecnologia. Francisco Alvim falou ainda da necessidade de previsibilidade fiscal e da implementação de políticas que promovam o acesso a fundos, a desburocratização e a promoção do mérito e escolha de soluções de risco transacional em operações de M&A. “Somos um país periférico com falta de geração de capital local que consiga investir aqui, o que nos torna dependentes de fundos europeus ou do investimento direto estrangeiro”, alertou.

Já João Nuno Palma, vice-presidente do BCP, antevê que a saúde seja alvo de operações de concentração, bem como operações de grupos económicos portugueses que querem diversificar-se, nomeadamente para responder aos desafios ESG.

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