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Caminho está mais estreito na UE. Para uns mais do que outros

Previsões : A guerra no Médio Oriente já levou várias entidades nacionais e internacionais a piorarem as estimativas de crescimento, inflação e saldo orçamental, ainda que haja exceções. Os Estados-membros estão todos no mesmo barco, dependentes do estreito de Ormuz, mas cada um gere a crise à medida das suas possibilidades.

Revisões em baixa do crescimento e do saldo orçamental, alertas para a escalada da inflação e múltiplos anúncios de ajudas para mitigar a crise — por toda a Europa, e à escala global, a guerra no Irão não deixa ninguém indiferente. Só que nem todos têm a mesma margem para gerir os impactos. Há um lote de países cuja economia e contas públicas deixam um caminho bem mais estreito pela frente, sobretudo se Ormuz continuar estrangulado sem fim à vista.
Esta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) deixou claro que “todos os caminhos apontam para preços mais altos e crescimento mais lento”, com especial risco para os países que mais compram do exterior. Muito dependerá “da duração do conflito, da sua extensão e dos danos que causar às infraestruturas e às cadeias de abastecimento”, ressalva a entidade liderada por Kristalina Georgieva. Na Europa, sublinha, “o choque está a reavivar o fantasma da crise do gás de 2021–22, com países como Itália e o Reino Unido especialmente expostos devido à sua dependência da produção de eletricidade a partir de gás, enquanto França e Espanha estão relativamente mais protegidos pela maior capacidade nuclear e de energias renováveis”.
No entanto, mesmo entre estes dois países, a realidade económica e orçamental dá margens diferentes para combater a crise.
Espanha mais protegida
Não é que as Finanças de Madrid sejam um extraordinário exemplo para a generalidade dos Estados-membros, com Bruxelas a prever antes da guerra uma dívida pública de 98,2% em 2026 e um défice de 2,1%. Só que qualquer Estado-membro arrisca, por estes dias, ficar bem na fotografia ao lado de França, cuja dívida deverá crescer para 118% e o défice (se tudo corresse como Paris deseja) ascender a -4,9%.
O que Espanha tem para apresentar como cartão de visita é, sobretudo, um dos crescimentos mais elevados da UE, puxado pelo consumo privado, o bom comportamento do mercado de trabalho e o investimento.
Poderá esse crescimento ser agora posto em causa com a guerra?Até ver, segundo as previsões da OCDE, será o menos penalizado entre os países mais ricos da UE. A organização reviu em baixa as perspetivas do PIBpara a zona euro em quatro décimas, para Alemanha, França e Itália em duas décimas, mas apenas em 0,1 pontos percentuais (p.p.) para Espanha. Após um crescimento de 2,8% em 2025, é esperado agora 2,1%. Éa mesma previsão do FMI, mas neste caso com uma revisão em baixa de duas décimas. O impacto da guerra vai sentir-se sobretudo através do petróleo, porque no gás “deverá ser atenuado por vários fatores, incluindo o peso significativo das energias renováveis” na produção de eletricidade, nota o FMI. Em todo o caso, a inflação homóloga de março já atingiu 3,3%. Há quase dois anos que não era tão elevada.
OBanco de Espanha, no entanto, até prevê uma melhoria do PIBem uma décima face a dezembro de 2,2% para 2,3%. Sem o impacto da guerra, seriam 2,4%. Todavia, estas previsões partem do pressuposto que o mercado de energia vai normalizar. Caso contrário, o PIB pode subir 1,9%.
A ajudar as previsões, diz o banco central, está a bazuca aprovada pelo Governo de Pedro Sánchez, um dos líderes europeus que atuou mais cedo e com mais dinheiro: 5 mil milhões de euros para reduzir o IVA nos combustíveis, na eletricidade e no gás natural de 21% para 10%, subsidiar transportadoras e a agricultura, reforçar apoios às populações vulneráveis e impor um teto no preço do gás.
Obanco central acredita agora que o défice vá chegar aos 2,3% este ano, mais duas décimas do que a última previsão.

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