Durante anos, a rede de carregamentos de carros elétricos em Portugal só surgia nas notícias por más razões. A falta de avanço da rede era noticiada de tempos a tempos, perante uma oferta de veículos que estava ainda numa fase muito precoce. Na altura, reinava a mentalidade “se a construíres [a rede], eles virão [os clientes]”, uma frase do filme Campo dos Sonhos com Kevin Costner. Com o tempo, a frase ganhou um novo significado na construção de infraestruturas: estas precisam de ser construídas primeiro para criar procura. O avanço foi lento, mas acabou por ganhar tração: a rede de carregamentos de carros elétricos em Portugal cresceu mais de 660% no espaço de 10 anos. Dos 1.076 postos em 2016, a rede cresceu para os atuais mais de 8.200. E isto numa altura em que as vendas de carros elétricos e eletrificados continuam a bater recordes em Portugal.Já pesam mais de dois terços das vendas do mercado de veículos ligeiros de passageiros.
“A rede tem crescido a um ritmo que acompanha o crescimento do parque automóvel elétrico. Serão sempre necessários mais carregadores super e ultra rápidos e especialmente os hubs de carregamento, que começam a surgir mas que ainda são insuficientes. A rede cresce a bom ritmo apesar das dificuldades introduzidas pelo novo regulamento”, para a mobilidade elétrica, disse ao JE o presidente-honorário da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE).
Henrique Sánchez considera que o novo modelo “trouxe dificuldades aos operadores que tinham os seus investimentos já decididos, sendo que a atual situação de duplicação dos dois modelos em vigor acrescenta instabilidade ao setor. Na minha opinião, esta alteração trouxe problemas que estavam resolvidos pelo modelo anterior e ainda não conseguiu apresentar as soluções que se exigem”, afirmou, referindo-se às mudanças aprovadas pelo Governo de Luís Montenegro que ditaram o fim da rede Mobi.e no final de 2027.
Já a Associação Portuguesa de Operadores e Comercializadores de Mobilidade Elétrica (APOCME) considera que os investimentos na rede vão continuar a crescer:“apesar desta fase um bocadinho menos certa, aquilo que vemos é que todos os operadores continuam a investir na rede. Vai continuar a haver investimento por parte dos operadores no desenvolvimento da rede”, disse ao JECarlos Ferraz.
Mas há bastantes desafios a superar ainda: “Continua a haver muitas dificuldades no desenvolvimento da rede. Os problemas continuam os mesmos de sempre com a burocracia e a morosidade nos processos para se avançar com o desenvolvimento da rede”.
“Hoje em dia, cada vez mais precisamos de rede com mais potência, há mais veículos, portanto, é necessário também instalar mais postos de carregamento e cada vez se torna um bocadinho mais complicado e mais moroso esses processos”, afirma, apontando para a “morosidade” de várias entidades, como a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), ou as Infraestruturas de Portugal: “há aqui alguns agentes que colocam os prazos um bocadinho mais elevados do que aquilo que os operadores pretendiam”.
Na passagem para o novo modelo para a mobilidade elétrica, Carlos Ferraz diz que, apesar do adiamento para o final de 2027 do fim da Mobi.e, considera que ainda existem “incertezas” sobre como “vão funcionar algumas situações”, como a imposição de um custo fixo aos operadores, o que nos postos do interior do país, com menos clientes, tem um peso maior na fatura.
“O novo modelo vai impor um custo fixo sobre essas localizações e os operadores estão aqui com algum receio. Estamos a fazer alguma força com o regulador para ver se conseguimos alterar isso de alguma forma”, defendendo uma “tarifa dedicada para o interior do país”.
Rede de carregamentos de elétricos cresceu 660% em 10 anos
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A rede teve um disparo no crescimento e deverá continuar a aumentar, mas as novas regras trouxeram “instabilidade” e “incertezas” ao setor dos carregamentos.