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Carros cada vez maiores e menos vagas para estacionar

Até 14% dos lugares de estacionamento em vias públicas vão desaparecer. Mas os carros não param de crescer e as cidades são iguais.

Há um elefante na sala. Tem quatro rodas, ar condicionado, ecrãs táteis e pode até, em alguns casos, ter bancos que fazem massagens. Além disso, “cresce a uma média de 1,2 centímetros por ano em comprimento e cerca de meio centímetro em altura e largura”, adverte um estudo publicado pela Transport & Environment (T&E) referindo-se aos automóveis.
O problema é que as cidades continuam com o mesmo tamanho. Resultado? Uma dança cada vez mais apertada entre circulação e estacionamento, uma tendência transversal a toda a Europa. Portugal não foge à regra. Pelo contrário, por ter uma forte dependência do transporte individual, o impacto pode vir a sentir-se ainda mais.
As razões são, à primeira vista, difíceis de contestar. Um automóvel é um investimento significativo para a maioria das famílias. Por mais alguns milhares de euros pode transformar-se num SUV que “dá para tudo”: férias, compras semanais, viagens longas. “A decisão individual é racional. O problema começa quando somamos todas essas decisões racionais e obtemos um resultado coletivo… menos racional”, diz ao JE José Mendes, ex-secretário de Estado da Mobilidade e professor na Universidade do Minho.
Oestudo aponta que o aumento das dimensões médias dos veículos contrasta com infraestruturas urbanas pensadas noutras eras. Muitas ruas, sobretudo em cidades históricas, como Lisboa e Porto, foram desenhadas com base em medidas herdadas de carroças e veículos muito mais estreitos. O Volkswagen Golf das primeiras gerações tinha uma largura semelhante à de carros anteriores à II Guerra Mundial. Hoje, a história é outra.
O impacto não se resume ao estacionamento — embora esse seja o sintoma mais visível. Estima-se que até 2040, entre 8,5% e 14% dos lugares poderão desaparecer das cidades. Menos carros cabem nas mesmas vagas.
Há, porém, um custo menos visível: o energético. Veículos maiores são também, regra geral, mais pesados, menos eficientes e com maior consumo de energia, mesmo quando eletrificados. Mais massa significa mais energia para mover cada quilómetro. Mais emissões no caso dos motores a combustão e maior pressão sobre redes elétricas no caso dos elétricos.
“Aqui entra a parte menos confortável. Este é um tema tóxico para decisores públicos”, diz José Mendes. “Medidas verdadeiramente eficazes, como limitar acesso automóvel a certas zonas ou reduzir estacionamento, são conhecidas — e aplicadas em cidades como Paris ou Copenhaga — mas esbarram na sua impopularidade”, explica. “Se um candidato aparecer a dizer que vai acabar com os carros numa cidade, sem oferecer alternativas, provavelmente nunca mais ganha eleições. A dificuldade está no timing... sem investimento prévio em transportes públicos robustos, qualquer restrição soa a castigo”, diz.
A solução não passa por demonizar o automóvel, mas por repensar o seu papel. “Precisamos de sistemas de transporte público muito mais eficientes, que permitam reduzir o uso do carro nas deslocações diárias”, diz Mendes A chave estará na intermodalidade — combinar diferentes meios — e, cada vez mais, na lógica da partilha.
Aqui entra um conceito que ganha terreno: mobilidade como serviço. Em vez de possuir um carro grande todo o ano, o utilizador pode aceder a diferentes veículos conforme a necessidade: mais pequeno para o dia a dia, maior para férias. “Não precisamos de um SUV todas as semanas”, nota Mendes.

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