O relatório da empresa de capital de risco Atomico 'State of European Tech', elaborado por Tom Wehmeier e Sarah Guemouri, e feito em parceria com a Amazon Web Services (AWS), a Orrick, o HSBC Innovation Banking e a Slush, revela que Portugal em 2025 vai captar menos dinheiro, face ao ano anterior (250 milhões de euros para 230 milhões de euros), e coloca o território luso na 14ª posição na Europa em capital total investido. Contudo os autores do documento também defendem, em declarações ao Jornal Económico (JE): "Portugal tem demonstrado liderança na atração de talento".
Em entrevista ao Jornal Económico (JE) os autores do relatório, Tom Wehmeier e Sarah Guemouri, explicam as conclusões do documento relativamente ao território luso.
Apesar de Portugal captar em 2025 menos dinheiro face ao ano anterior, e de ocupar a 14ª posição na Europa em capital total investido, Tom Wehmeier e Sarah Guemouri sublinham o progresso que Portugal tem feito nestas áreas.
Os autores do relatório salientam que a trajetória de Portugal mostra um "progresso real" no espaço de dez anos, com um "aumento superior a sete vezes" desde 2016.
"Atualmente, o país conta com três empresas avaliadas em mil milhões de dólares (860 milhões de euros), sendo que a Tekever alcançou este estatuto em 2025, num ano em que surgiram novos unicórnios em 11 países diferentes da Europa", salientam Tom Wehmeier e Sarah Guemouri.
Relativamente ao lugar que Portugal ocupa ao nível do capital angariado, Tom Wehmeier e Sarah Guemouri, salienta que a "modesta variação" que o país apresentou ao nível do dinheiro captado "reflete a forma" como as megarrondas influenciam a posição dos países.
"Enquanto os cinco maiores negócios no Reino Unido representam apenas 25% do financiamento total, noutros mercados a concentração é muito maior, o que significa que um pequeno número de empresas de elevado crescimento pode alterar significativamente as tendências. Fora do top 10 europeu, 76% dos países assistiram a uma queda nos níveis de investimento em 2025, o que sugere dinâmicas de mercado mais amplas em vez de fragilidades específicas de cada país", explicam Tom Wehmeier e Sarah Guemouri.
Para ambos a oportunidade reside em "mobilizar" a infraestrutura de capital, dado que os fundos de pensões do sul da Europa alocam apenas 0,022% dos seus ativos sob gestão ao capital de risco. "Se os fundos de pensões europeus igualassem os níveis dos principais investidores norte-americanos, poderiam fluir mais 210 mil milhões de dólares (180 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) para o capital de risco europeu na próxima década", calculam Tom Wehmeier e Sarah Guemouri.
Autores referem que regulamentação é uma barreira
Tom Wehmeier e Sarah Guemouri adiantam também que além do capital, a regulamentação "continua a ser uma das maiores barreiras" para construir a partir da Europa.
"A criação de quadros transfronteiriços harmonizados e de regimes de participação acionista acessíveis para os colaboradores ajudaria os fundadores portugueses a fazer crescer os seus negócios a partir do seu próprio país. Portugal tem demonstrado liderança na atração de talento através dos seus regimes para nómadas digitais, revelando a capacidade do país para criar políticas favoráveis aos fundadores, as quais poderiam ser alargadas a outras áreas do ambiente regulatório", sugerem Tom Wehmeier e Sarah Guemouri.
Portugal tem-se destacado como hub de centros de dados
O relatório adianta também que Portugal, juntamente com Espanha e os países nórdicos, está a se afirmar como um hub de centros de dados (data centers).
"Ainda que a maioria dos centros de dados europeus continue concentrada na Alemanha, no Reino Unido, nos Países Baixos, em França e na Irlanda, novos polos estão a emergir à medida que a inteligência artificial aumenta a procura de infraestruturas localizadas. O investimento de 8,6 mil milhões de euros da Microsoft em Sines, um dos maiores investimentos tecnológicos da história de Portugal, demonstra o potencial do país", explicam Tom Wehmeier e Sarah Guemouri.
Este estudo diz ainda que 35% dos inquiridos em Portugal estão mais otimistas quanto ao futuro da tecnologia europeia do que estavam em 2024, enquanto 38% mantêm a mesma perspetiva.
Face a este dado Tom Wehmeier e Sarah Guemouri salientam que o nível de otimismo "é maior" na Europa em geral, o que indica que "há espaço" para Portugal "acelerar" o seu progresso.
"Parte da redução desta diferença de otimismo passa por continuar a encarar o risco como um componente essencial. O otimismo cresce quando o fracasso é encarado como uma aprendizagem valiosa, quando os investidores se sentem preparados para apoiar o potencial nas fases iniciais e quando a inovação é vista como uma oportunidade", referem ambos os autores do relatório.
Tom Wehmeier e Sarah Guemouri sublinham que os fundamentos "são sólidos" e que Portugal "tem o talento e a infraestrutura necessários". Ambos consideram que a oportunidade, tanto para Portugal como para a Europa de uma forma mais ampla, reside agora em "fortalecer" a cultura em torno do risco, em "apoiar apostas mais precoces com convicção e construir salvaguardas adequadas" com rapidez, "demonstrando que o progresso e a prudência podem coexistir e tratando a ambição como algo que mobiliza todo o ecossistema".
Setor tecnológico europeu vale quatro triliões
O relatório avalia o setor tecnológico europeu a valer quase quatro triliões de dólares (3,4 biliões de euros na denominação europeia), o equivalente a 15% do Produto Interno Bruto (PIB).
"Atualmente, a Europa conta com quase 40 mil empresas tecnológicas com financiamento, comparativamente com menos de 10 mil em 2016", salienta o relatório a Atomico.
O documento salienta que quase 70% dos fundadores consideram que o ambiente regulatório da Europa "é demasiado restritivo" e identificam como as principais barreiras a "fragmentação do mercado, os mercados de capitais e as regulamentações trabalhistas".
O relatório adianta que Londres dominou o capital de risco em 2024, com oito dos dez maiores fundos. Contudo em 2025 as empresas francesas e alemãs ocuparam todas as posições, exceto três, entre as dez maiores, "sugerindo um impulso por trás" da integração europeia.
"O número de talentos na Europa cresceu 4%, atingindo os 4,6 milhões, no último ano. A região está em pé de igualdade com os Estados Unidos e a Ásia em termos de criação global de startups e continua a ser uma beneficiária líquida dos fluxos internacionais de talentos, enquanto 81% dos fundadores europeus de inteligência artificial (IA) permanecem agora na Europa, contra 74% em 2016", indica o documento elaborado por Tom Wehmeier e Sarah Guemouri.
"42% afirma que é mais atraente tornar-se fundador na Europa hoje, comparativamente com há um ano, contra apenas 19% que afirma ser menos atraente, enquanto 51% afirma que construir na Europa é fundamental para a sua missão", adianta o documento.
Outro dado divulgado no documento salienta que o investimento em capital de risco aumentou 7%, para 44 mil milhões de dólares (37 mil milhões de euros), e adianta ainda que os fundos de pensão europeus aumentaram as suas alocações em capital de risco em 55% em 2024 — de 650 milhões de dólares (558 milhões de euros) para mil milhões de dólares (860 milhões de euros).
O relatório de Tom Wehmeier e Sarah Guemouri salienta que a tecnologia profunda e a inteligência artificial equivale a 36% do capital de risco europeu, uma subida face aos 19% em 2021. "O financiamento em tecnologia de defesa aumentou 55% em relação ao ano anterior, para 1,6 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros), e 31% de todo o financiamento europeu levantado em 2025 foi para empresas que desenvolvem inteligência artificial/ML", refere o documento.
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