Só em quatro das empresas que integram o PSI, o principal índice da bolsa portuguesa, há registo de interesses a descoberto relevantes, ou seja, que representem 0,5% ou mais do capital social de uma empresa.
É o short-selling. Vender um ativo com a expectativa de o recomprar a um preço mais baixo, visando o lucro caso o preço desça. É esta a definição. Shortar, assumir posições curtas, no jargão da atividade de compra e venda de ativos.
Acontece quando o investidor considera que determinado título está sobreavaliado em relação ao balanço da empresa ou às perspetivas de evolução do negócio. Pedem ações emprestadas, vendem-nas e esperam que o preço desça para as recomprarem mais baratas, devolverem a quem emprestou e ficarem com a diferença. Chamam-lhes abutres.
Entre os quatro alvos do PSI com investidores a apostarem na queda da cotação dos títulos destaca-se a Mota-Engil. Estão registadas quatro posições ativas, as tais acima de 0,5% do capital social e que é obrigatório comunicar publicamente. No total, são 3,15% do capital em causa, mais do dobro do que se verifica com as outras três empresas – Altri, NOS e Navigator.
Entre as quatro posições a descoberto no capital da multinacional portuguesa de construção e gestão e infraestruturas destaca-se uma, da Muddy Waters. É a menor em dimensão, de 0,57%, mas a mais antiga, ativa desde 20 de novembro de 2024. Aliás, a gestora de fundos norte-americana tem sido protagonista no short-selling da Mota-Engil e a gestão da empresa reagiu.
Em 2024, em sete meses, entre março e setembro, a cotação caiu 57%, para 2,5 euros. Os corretores diziam ao Jornal Económico (JE) que as contas apresentadas não justificavam a descida. E, em dezembro, o CEO da Mota-Engil, Carlos Mota dos Santos, acusou a Muddy Waters de “manipulação do mercado”, apontando que a gestora “teve um processo complicado com a SEC [supervisor do mercado de capitais norte-americano] nos Estados Unidos e um processo de manipulação do mercado na Alemanha”.
“Tenho a certeza absoluta de que esse fundo está coordenado com outros fundos, porque, pese embora eles tenham tido 0,65% de posição descoberta, que entretanto já baixaram, chegámos a ter uma posição a descoberto na ordem de 14% do free-float, o que é muito significativo”, frisou. “Não há coincidências”, sublinhou.
Em resposta, a Muddy Waters processou-o e à empresa, nos Estados Unidos, por difamação.
A Mota-Engil contestou, rejeitando as acusações de difamação e defendendo que as declarações do CEO, Carlos Mota dos Santos, foram legítimas e baseadas na leitura dos acontecimentos de mercado. No documento, a que o JE teve acesso, sustenta que não houve qualquer atuação ilícita por parte da empresa ou do seu presidente-executivo, e que as declarações feitas à imprensa refletem uma interpretação legítima de movimentos anormais na cotação e no comportamento de investidores. E que Mota dos Santos tinha o dever de prestar esclarecimentos ao mercado e aos acionistas, num momento de elevada volatilidade.
Aproveita a informação constante da queixa para apontar que a Muddy Waters divulgou a informação sobre a posição assumida através do Domino Fund, que foi de 0,65% do capital da Mota-Engil, mas que foi reduzida para 0,57%, mas refere outra posição assumida através do Global Opportunities Fund, sem quantificação, nem consolidação numa posição única. Dois fundos geridos pela mesma entidade, com o mesmo interesse.
Ao JE, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários explica que “o cálculo de posições curtas relevantes sobre ações obedece a um conjunto de regras atinentes não só à mensuração de posições curtas sintéticas que podem ser assumidas através de distintos instrumentos financeiros derivados como também a regimes aplicáveis a estruturas complexas” e que “há diversos fatores que devem ser tomados em consideração para efeitos da eventual agregação, ou não, de posições”.
“Cabe em primeira linha aos investidores sobre os quais recaem os deveres de transparência e/ou de comunicação proceder à respetiva análise e cálculo para efeitos de cumprimento das obrigações que lhes incumbem”, acrescenta.
Agora, o tribunal o dirá.
Com Maria Teixeira Alves
Mota-Engil já contestou processo da gestora que aposta na sua queda
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Bolsa a A gestora americana processou o CEO da Mota-Engil por difamação, por a ter acusado de manipular o mercado. Mas na queixa assume que tinha uma posição não divulgada na construtora, que já contestou a acusação.