Apesar do ambiente macroeconómico global pouco favorável e da elevada exposição ao mercado norte-americano, a Irlanda deverá liderar o crescimento na União Europeia (UE) e entre as economias avançadas este ano, podendo mesmo chegar aos dois dígitos. O país foi, tal como Portugal, alvo de intervenção após a crise financeira global e, tal como a economia nacional, tem-se destacado pela positiva nos últimos anos, embora crescendo três vezes mais desde 2013, e nem a ameaça tarifária dos EUA parece desviar do rumo do crescimento e dos superavits.
Os números variam, mas a ideia geral da maioria das instituições irlandesas e internacionais é a mesma: a Irlanda vai crescer de forma destacada do resto da zona euro, aproximando-se de valores expressivos e talvez chegando mesmo à casa das dezenas. O Ministério das Finanças irlandês mostra, a par do Banco da Irlanda, o maior otimismo, apontando a um avanço de 10,8%, enquanto o banco central antecipa 10,1%; o Fundo Monetário Internacional (FMI) é mais contido, mas também antecipa uns impressionantes 9,1%; e o Instituto de Investigação Económica e Social (ESRI) projeta 8%, mais do que suficiente para liderar a zona euro este ano.
A título comparativo, a zona euro deve crescer 0,9% este ano, segundo a Comissão Europeia, e o FMI antecipa um avanço de 3,2% para a economia global. Já Portugal deve crescer entre 1,8%, antecipa Bruxelas, e 2%, segundo o Governo, ficando confortavelmente na primeira metade dos países europeus, na sétima posição.
Armindo Monteiro, presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, lamenta a “competitividade, desde logo fiscal, que em Portugal nunca tivemos”, ilustrando mesmo a economia nacional como “o exemplo anti irlandês”, dadas as escassas medidas para atrair investimento externo.
O país insular do Norte focou-se em “oferecer as melhores condições de produção” possíveis, “sejam a competitividade fiscal, a competitividade laboral, uma justiça rápida, capacidade de contratar e bons prazos de pagamento”, tudo fatores diferenciadores em relação a Portugal e que levam à decisão de inúmeras multinacionais de se fixarem em território irlandês.
Além da projeção para o ano como um todo, a economia irlandesa já tomou a dianteira do crescimento europeu na primeira metade do ano, impulsionando o bloco como um todo. Representando apenas 4% do PIB da zona euro, metade do avanço de 0,6% registado no primeiro trimestre pela economia da moeda única foi responsabilidade da Irlanda, que passou com distinção ao desafio criado pelos ziguezagues tarifários de Trump.
Para lá do ‘frontloading’ dos EUA
A Irlanda beneficiará de uma dinâmica favorável no mercado interno, com o consumo a crescer 2,9% este ano e os gastos públicos outros 3,4%, apesar de um Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) com apenas 900 milhões de euros. Por outro lado, o investimento dará um forte contributo, acelerando 2,4% em 2025, estima o banco central
Segundo a KPMG, a Irlanda é a economia europeia mais exposta aos EUA e a que arrisca maior impacto no PIB do próximo ano com as tarifas de Washington, mas a verdade é que os efeitos em 2025 têm sido limitados. Na realidade, a antecipação de encomendas dos EUA levou a um disparo nas exportações no início do ano, que cresceram 46,9% em termos homólogos nos primeiros cinco meses do ano, isto olhando apenas para os bens.
O setor farmacêutico é o grande responsável pela performance irlandesa, sobretudo dado o frontloading por importadores dos EUA e os atrasos na implementação das tarifas, mas há outros fatores a ajudarem. Focando exclusivamente no setor farmacêutico, o crescimento até maio foi de 73,9%, de acordo com dados da BDO irlandesa.
Isto deu um forte contributo aos impressionantes números para o PIB nos dois primeiros trimestres, quando a economia irlandesa cresceu 19,9% e 17,1% em termos homólogos, e refletiu não só o frontloading, mas também “novas instalações de produção farmacêutica a serem abertas”, explica o Banco da Irlanda. Por outro lado, um primeiro trimestre tão forte significou também leituras em cadeia menos expressivas nos períodos seguintes: um avanço de apenas 0,2% no segundo trimestre e uma contração de 0,1% no terceiro, apesar da leitura homóloga de 10,5%.
‘Milagre’ económico irlandês cresce acima de 10% este ano
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O peso das multinacionais na economia irlandesa chegou a fazer soar os alarmes com as tarifas dos EUA, mas país tem resistido à tensão comercial e antecipa um crescimento nos dois dígitos. Contrasta com a estagnação que domina a Europa. Desde 2013, cresceu três vezes mais do que Portugal.