Os Estados Unidos da América (EUA) são responsáveis por cerca de 10% do financiamento internacional que a Fundação Champalimaud capta, mas com a mudança política, esse cenário está comprometido. Esta é a grande preocupação de Joana Lamego, head of Strategic Research Development na Fundação Champalimaud.
Entre 2017 e 2025, a fundação garantiu mais de 100 milhões de euros em financiamento externo competitivo e para Joana Lamego, esse marco é algo que reconhece o trabalho de toda a comunidade. “Há um potencial enorme que foi explorado de forma sistemática e foi isso que tornou possível chegar a estes resultados”, diz.
Em entrevista ao Jornal Económico, no âmbito do Innov.Club, um clube promovido pela sociedade de advogados VdA e pela Beta-i e do qual o JE é parceiro, Joana Lamego aue as agências de financiamento “vão acompanhando tudo o que se passa no contexto geopolítico e geoeconómico atual” e que a equipa que gere deve perceber essa dinâmica. E há nuvens negras no horizonte, sobretudo vindas dos Estados Unidos, porque o foco mudou com a nova Administração de Donald Trump.
“O financiamento competitivo externo, principalmente o público, seja da Comissão Europeia ou o norte-americano [proveniente do “National Institutes of Health”], é sobretudo político. Não há outra forma de expor isto”, explica. Este financiamento “é muito sensível aos ciclos governativos que, como sabemos, são cada vez mais voláteis” e apesar de uma monitorização constante do ecossistema externo, este “é impossível de controlar”.
Lamego recorda 2024 e como ninguém foi capaz de prever o que ia acontecer no último ciclo eleitoral nos EUA e qualifica o que aconteceu desde então como dramático: “Cerca de 10% do financiamento internacional que a Fundação Champalimaud estava a captar vem de fundos norte-americanos, não necessariamente públicos, mas sim privados. Podíamos pensar que, sendo privados, não afeta. Afeta muito”. Joana Lamego explica porquê: “Há regras que são impostas pelo Governo norte-americano que são também aplicáveis às entidades privadas do país e, nesse aspeto, é dramático. Há aqui um efeito de contágio no esforço colaborativo transatlântico e, portanto, preocupa-me que isso também possa chegar à Europa e a outras geografias”.
Com este “desinvestimento dramático” nos EUA em termos do que é o financiamento à investigação, Joana Lamego conclui que temos, a nível mundial, um desinvestimento em ciência, sendo que um dos grandes motores internacionais para este conhecimento é toda a inovação desenvolvida na Fundação Champalimaud, como é o caso de novas vacinas que possam combater pandemias, novas formas de lidar com desastres naturais e como lidar com as consequências da guerra.
Desinvestimento americano preocupa Champalimaud. “É dramático”
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Fundação Champalimaud capta 10% do seu financiamento internacional nos Estados Unidos, o que poderá estar comprometido com a mudança política de Trump. E teme-se o efeito de contágio na Europa.