Os clubes portugueses, mais concretamente as 33 sociedades desportivas do futebol nacional, estão “sentadas” em cima de 124 milhões de euros que não são reconhecidos como ativos nem usados como alavanca para valorização do futebol profissional.
Nuno Mena, consultor e analista com trabalho efetuado nos últimos 17 anos em clubes, ligas e federações de Portugal, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos, América Latina e Médio Oriente, diz que estes dados de sócios e adeptos não são reconhecidos nos balanços dos clubes, quando os intangíveis (dados, endereços IP, relação com clientes) já chegam a representar cerca de 90% do valor das empresas do S&P 500.
“Vamos continuar a ter adeptos ou vamos passar a controlar, medir e monetizar a relação com esses adeptos, tornando-os ativos de negócio, contabilisticamente reconhecidos?”, questiona.
Retalho, banca e aviação: estes três setores transformaram-se à conta de uma conjugação única de fatores estruturais, tecnológicos e económicos que criam uma oportunidade única para o futebol português no momento em que entra na segunda parte da década mais determinante da sua história.
Mena dá exemplos de sucesso: empresas como a Amazon, American Airlines, Tesco ou Continente têm a noção que 60% a 80% da sua valorização vem de ativos de dados, loyalty e analítica preditiva. As três indústrias mencionadas reinventaram os seus modelos de negócio e de gestão profissional através de dados, digitalização e a exploração de novas fontes de receita.
Enquanto isso, o futebol português continua a operar com um modelo de gestão de 1995: “Associativo, fragmentado, pouco orientado a métricas e demasiado dependente da bola que entra ou que não entra”, diz.
A insistência neste modelo de gestão torna-se incompreensível quando o futebol português tem nas mãos a tal conjugação única: centralização dos direitos; Mundial de 2030; tecnologias maduras, acessíveis e escaláveis; adeptos globalizados e digital first e investidores muito atentos ao mercado nacional. E Portugal precisa muito dessa mudança porque é uma das ligas europeias com menor receita média por clube, base de adeptos, taxa de ocupação de estádio, receitas comerciais e valorização de direitos, aponta este analista.
Nuno Mena acredita que o que demorou 20 a 30 anos no retalho pode ser executado no futebol português em 48 a 60 meses.
Clubes portugueses desaproveitam 124 milhões do negócio da informação
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A indústria do futebol não vive só dos jogos. Quer-se moderna, orientada em função do adepto e suportada por múltiplos negócios, incluindo a rentabilização dos dados.