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Capitã Lagarde fica no BCE enquanto houver “nuvens”

O mercado esperava sinais sobre a reunião do BCE em setembro, mas Lagarde só garantiu que fica no cargo até 2027, quando acaba o mandato. Taxas ficam inalteradas em 2,25% e postura é de ‘esperar para ver’.

Quando há nuvens no horizonte, o capitão não abandona o barco”: assim respondeu Christine Lagarde às especulações sobre se acabará o seu mandato à frente do Banco Central Europeu (BCE), isto depois de anunciar que os juros diretores se mantinham inalterados em 2,25% após a reunião de ontem.
Na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio, que era já largamente esperado pelo mercado, a presidente do BCE foi confrontada com as notícias que vinham sugerindo, ao longo dos últimos meses, que poderia abandonar a autoridade monetária antes de outubro de 2027, quando termina o seu mandato.
“Não se veem livres de mim antes de 2027”, atirou de forma concisa, reiterando que, “quando há nuvens no horizonte, o capitão não abandona o barco. E esta capitã não abandona o barco”.
Associada nos últimos meses ao Banco Mundial ou até a um regresso à política francesa, a advogada de formação, de 70 anos, procurou assim retirar um pouco da incerteza acrescida que tem dominado a economia global – e, por arrasto, a europeia – nos últimos trimestres.
Por outro lado, a incerteza decorrente das tensões geopolíticas globais será mais difícil de conter, mas Lagarde garante que o BCE está preparado para tal. A decisão de ontem foi “unânime”, apesar de alguns governadores terem equacionado a possibilidade de uma subida, e a descida “mais rápida do que antecipávamos” dos preços do barril de petróleo após o memorando de entendimento entre EUA e Irão deu uma ajuda.
Ainda assim, “o choque energético pode-se intensificar” e, “quanto mais tempo os preços da energia continuarem elevados, maior o risco de efeitos de segunda ordem”, algo que, garante, ainda não vê qualquer evidência.
“Nenhum dos elementos [que monitorizamos] nos está a dar indicações de efeitos de segunda ordem”, reforçou, depois de afirmar que “estamos a escrutinar” a situação. “Um dos elementos mais informativos que temos são os inquéritos telefónicos às empresas […] e não estamos a ver efeitos de segunda ordem”, completou.
E, antes da reunião de setembro, haverá um manancial de dados relevantes para a reunião do BCE a serem divulgados, destacou. Entre eles, “duas leituras da inflação, o PIB no segundo trimestre, as expectativas de inflação dos consumidores, compensação por trabalhador”, o que permitirá dar uma perspetiva mais informada e completa da situação real da economia europeia.
Para os analistas da Pantheon Macro, há aqui dois sinais claros: o primeiro é que “o BCE está claramente a inclinar-se para uma abordagem ‘de falcão’, focado nos riscos ascendentes para a inflação”; e o segundo aponta para “uma verdade inconveniente, em que, independentemente de todos os dados que formos conhecendo até setembro, a decisão irá sobretudo depender da trajetória dos preços do petróleo e da situação no Médio Oriente”.
Também a análise da Aberdeen argumenta que “este pode ser a primeira pausa de um período de estabilidade ou a calma antes da tempestade”, sendo que o elemento determinante será a situação no Médio Oriente.
Com o barril de petróleo a voltar a tocar os 100 dólares durante o dia, a nota da Aberdeen refere que, “se persistente, um choque energético desta magnitude seria demasiado forte para o BCE ignorar e teria de voltar a subir em setembro”; por outro lado, “um recuo poderia dar ao BCE a margem que precisa para permanecer em espera o resto do ano, dado que os sinais de efeitos de segunda ordem que possam entrincheirar a inflação são escassos, por agora”.
O consenso do mercado aponta para nova subida de 25pb em setembro, mas tal dependerá criticamente da situação nos mercados energéticos. Confrontada com a subida da cotação do petróleo após os ataques dos Houthis a petroleiros sauditas, Lagarde admitiu que tal não foi discutido. “Os ataques, salvo erro, foram reportados às 10h00; a nossa reunião terminou às 10h15”, explicou.

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