A sua grande oportunidade surgiu de projetos em insolvência. Corria o ano de 2012, quando Portugal teve de pedir ajuda financeira internacional. Andava por cá a troika e com ela o aumento dos impostos, privatizações, recessão económica e um apertar de cinto de que já não havia memória. No turismo, isso traduzia-se em hotéis a falir, projetos suspensos e ativos nas mãos da banca.
Foi neste terreno árido que Margarida Almeida fez prosperar um negócio que nunca mais parou de crescer. Chama-se Amazing Evolution e pode dizer-se que tem tido um percurso “Amazing!”. Formada em Direito pela Universidade Lusíada e com experiência em advocacia de negócios e imobiliário, acabou por assumir responsabilidades de gestão num grupo em dificuldades, o Imocom, liderando um processo de falência complexo, com ativos relevantes no setor hoteleiro. “Fiquei sozinha a gerir uma insolvência muito grande, com vários ativos, caso do Hilton Vilamoura e o Conrad Algarve com muitos credores e dívida sobretudo bancária”, recorda, numa experiência que descreve como “muito enriquecedora do ponto de vista profissional, mas pessoalmente traumatizante. Hoje não teria coragem para o fazer”, admite, contando que fazia Lisboa-Algarve várias vezes na semana.
A trajetória de Margarida Almeida é, acima de tudo, uma história de resiliência — e de como uma crise originou um novo modelo de negócio no setor da hotelaria. Apenas com um telefonema de Inglaterra, ligado ao banco Barclays, que a desafiou a assumir outros projetos também a fazer a travessia do deserto em Portugal. Margarida aceitou, mas havia um problema: não tinha empresa. “Disse que sim, mas tive de ir à empresa na hora criar uma”, diz, a rir, contando que o nome acabou por ficar “Amazing Evolution” por ser o único disponível que fazia algum sentido”. Naquele momento, não era a marca o importante. A designação era apenas a ferramenta que lhe abriria portas a um novo desafio e futuro.
O que começou como uma solução temporária de autoemprego transformou-se numa operação em crescimento contínuo.
Hoje, a empresa gere 37 projetos em operação e possui 17 em desenvolvimento, com escritórios em Lisboa, Porto e Algarve, e uma equipa de cerca de 60 colaboradores que acompanha todas as fases do ciclo hoteleiro.
Apesar disso, “o modelo de negócio mantém-se fiel à origem: a gestão pura, sem investimento direto nos ativos”, afiança, acrescentando “gerimos de forma tailor made, não temos soluções one fits all. A nossa abordagem olha cada projeto e elabora um plano de ação de acordo com a sua singularidade, perfil e vocação. Esse será o nosso superpoder “, levanta o véu do segredo do negócio.
A experiência na insolvência acabou por moldar não apenas o percurso de Margarida Almeida, mas também o posicionamento estratégico da empresa. A exposição direta a ativos em dificuldade, com forte pressão financeira e operacional, deu-lhe uma leitura rara do setor — do risco à recuperação de valor.
“Somos uma entidade gestora. Calçamos os sapatos do proprietário e defendemos o ativo em todas as frentes”, explica. A empresa funciona como operador white label, um modelo comum a nível internacional, mas pioneiro em Portugal, servindo de braço operacional para investidores e grandes marcas.
Com a entrada de investidores estrangeiros em Portugal, sobretudo a partir de 2014, o mercado hoteleiro ganhou nova dinâmica, com fundos e grupos internacionais à procura de ativos e parceiros locais capazes de os operar com eficiência. Foi nesse contexto que a Amazing Evolution consolidou o seu papel como plataforma de execução, ligando capital internacional ao conhecimento local. Ainda assim, o crescimento nunca foi orientado pelo volume. “O nosso propósito é criar valor ao ativo do proprietário”, sublinha.
Essa lógica estende-se à própria visão do setor. Num mercado cada vez mais pressionado pela massificação, Margarida defende uma mudança de paradigma. “O futuro é a qualidade e não a massificação. Não há turismo de qualidade sem respeito pelo território”, defende.
Essa intermediação exige um equilíbrio delicado entre a pressão para rentabilidade e a necessidade de adaptação ao território.
A aposta passa por hotéis de menor escala, mais integrados no contexto local e com uma proposta diferenciadora. A autenticidade, diz, deixou de ser um conceito de marketing para se tornar um fator crítico de competitividade.
A partir de 2016, a empresa deixou de ter projetos em insolvência. Têm tido mais solicitações de family Office, fundos de investimento e promotores individuais.
Nos últimos anos, o crescimento da empresa tem sido impulsionado também pela procura internacional. Fundos, investidores europeus e cadeias globais têm recorrido à Amazing Evolution, muitas vezes em regime de franchising, num modelo que exige forte conhecimento local. “Temos sido contactados por marcas internacionais que precisam de um operador local para desenvolver os seus projetos”, conta.
Ao mesmo tempo, o setor enfrenta uma transformação estrutural: escassez de mão de obra, aumento dos custos operacionais e maior exigência tecnológica estão a obrigar os operadores a repensar modelos e processos. A digitalização e a eficiência deixaram de ser diferenciais para se tornarem condições de base.
Mas nem tudo são boas notícias. O aumento dos custos energéticos, das matérias-primas e da carga fiscal está a pressionar a rentabilidade do setor. Ainda assim, a estratégia mantém-se: crescer, mas com critério. “Para nós, o crescimento mais importante é em qualidade. O objetivo não é ter mais hotéis, é fazer melhor”, afiança.
A sustentabilidade surge como outro eixo central, com impacto direto nas decisões de investimento e operação. A eficiência energética, a gestão de recursos e a integração com o território passaram a ser determinantes num setor cada vez mais escrutinado.
Quanto ao futuro, no curto prazo, a próxima abertura será o Esperança Hotel Braga, sob a marca VignetteCollection, do grupo IHC, no centro histórico de Braga. Seguir-se-ão, ainda este ano, o Nomad Bay Algarve, previsto para setembro, e um projeto de reconversão de um mosteiro perto de Évora. Mais recentemente, o The Book Hotel, no Faial, o primeiro cinco estrelas desta ilha, que entrou em fase de soft opening este mês.
Entre os projetos previstos para os próximos dois, três anos, a CEO destaca três no Algarve, um no Fundão e outro em Lisboa, todos associados a marcas internacionais, como é o caso de um que integrará a marca Tappestry, da Hilton e outro do grupo hoteleiro Accor que lança pela primeira vez em Portugal a marca Handwritten Collection.
Paralelamente, a empresa tem vindo a reforçar o seu portefólio , com unidades como a MACAM Hotel, Herdade da Barrosinha e as Caldas de Monchique. Além disso, tem estado a crescer no segmento de projetos que combinam hotel e Branded Residences.
Em termos geográficos, continua a consolidar a sua presença no Algarve, Alentejo e Lisboa, enquanto reforça a expansão para as ilhas, o Centro e Norte do país, com projetos em Aveiro, Coimbra, Fundão e Braga.
Margarida Almeida, termina, dizendo que são uma empresa de gestão única, com um propósito muito próprio de gerir em representação dos proprietários que não têm escala para ter uma equipa musculada e multifacetada com competência em todas as áreas, desde vendas, marketing, operação, financeiro, entre outras, para os desafios de uma economia global.
Quando questionada sobre expandir para o estrangeiro, confessa que já foi aliciada, mas garante que Portugal ainda tem muito por onde crescer e que não tem mãos a medir com as propostas que lhe chegam, todas pelo passa a palavra.
O negócio está de boa saúde e recomenda-se. A receita total dos projetos da Amazing registou um crescimento de 9,6% entre 2023 e 2024, de 10,2% entre 2024 e 2025 e de 11,2% entre 2025 e 2026 “sendo os dados de 2026 uma estimativa até hoje”, explica.
Num país onde o turismo continua a ser um dos principais motores económicos, histórias como esta mostram que há espaço para modelos alternativos — menos dependentes da escala e mais focados no valor. E que, por vezes, é no meio da crise que nascem as soluções mais duradouras.
Um negócio amazing inspirado em “insolvências”
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Gere 45 milhões em ativos hoteleiros e soma mais de 37 projetos em operação e 17 em desenvolvimento. Mas a Amazing Evolution não nasceu de um plano de negócio, mas de um telefonema num ano em que o setor estava em crise.