Em 2010, quando Kathy Barroso e José Luís Barroso aceitaram o desafio de assumir a Siroco, Sociedade industrial de robótica e controlo S.A., em Aveiro, sabiam que estavam a entrar num território pouco familiar — na altura esta foi integrada num grupo familiar de Braga mais voltado para a indústria dos plásticos, com uma lógica de produção distinta da engenharia à medida da Siroco. Ao mesmo tempo, assumiam o desafio de liderar um negócio em conjunto enquanto casal, equilibrando decisões empresariais com a dinâmica pessoal.
“A empresa nascida em 1988 foi adquirida quando os fundadores decidiram reformar-se. Não havia sucessão e a família viu ali uma oportunidade de dar continuidade ao negócio”, recorda Kathy Barroso, CEO.
A Siroco desenvolve e constrói equipamentos e linhas de automação industrial, integrando robótica e soluções inteligentes, criando sistemas à medida para diferentes indústrias. Os seus clientes são sobretudo empresas industriais dos setores automóvel, eletrónico e elétrico, indústria biomédica, ferroviária e de manufatura avançada, muitas delas multinacionais que procuram soluções específicas para as suas linhas de produção. A aposta na automação avançada permite às empresas reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência.
O início não foi simples. “Passámos de uma lógica de produção massificada para soluções totalmente customizadas. Cada máquina é diferente, cada cliente exige uma resposta própria”, explica José Luís Barroso, COO da Siroco.
Cinco anos depois, em 2015, tomaram outra decisão estratégica: tornar a Siroco novamente independente. “Sentimos que a empresa precisava de um caminho próprio. Ficámos nós os dois à frente do projeto e isso mudou tudo”, diz a CEO. No entanto, trabalhar como casal na gestão do negócio trouxe desafios, mas “acabou por se tornar uma das forças do projeto, permitindo decisões mais alinhadas e uma visão comum para o crescimento da empresa”, admite Kathy Barroso.
“A concorrência internacional é exigente e obriga-nos a inovar constantemente e a manter elevados níveis de eficiência”, sublinha o COO, apontando este facto como um dos principais desafios do negócio.
Hoje, a Siroco é uma empresa de engenharia tecnológica com três áreas de negócio — automação industrial, onde desenvolvem e constroem equipamentos e linhas de montagem automáticas com inclusão de robôs, depois desenvolvem e constroem ferramentas de precisão para montagem e cravação e por fim, prestam serviço de maquinação, montagem mecânica e elétrica. Esta especialização reflete-se também na equipa: cerca de 64 colaboradores, altamente qualificados, entre engenheiros e técnicos. “Aqui não há produção em série. Cada projeto nasce do zero e exige conhecimento profundo a nível tecnológico. Oferecemos soluções chave na mão”, sublinha o COO.
A faturação tem-se mantido estável, entre os quatro e os seis milhões de euros anuais, um sinal de consistência num setor exigente. Mas é na internacionalização que a Siroco mais se destaca: entre 60% e 85% da produção é exportada.
Europa, Norte de África, América do Norte e Ásia fazem parte do mapa. Espanha, França, Alemanha, Suécia ou Polónia são mercados regulares, mas há também clientes em Marrocos, Tunísia, Egito, México, Estados Unidos ou China. “Muitas vezes começamos a trabalhar com um cliente em Portugal e depois somos recomendados para outras fábricas no mundo. Esse efeito de rede é crucial”, explica Kathy Barroso.
Porém, nem tudo tem sido linear. A pandemia já tinha deixado mazelas, agora a instabilidade geopolítica, trouxe novos desafios, sobretudo ao nível das cadeias de abastecimento. “Temos sentido atrasos e aumentos de preços significativos nas matérias-primas e componentes, por vezes entre 5% a 30%”, refere o COO. A pressão da concorrência global e a imprevisibilidade do contexto internacional são outros desafios. E lamentam que a Europa não crie regulamentação que ajude as empresas a concorrer com a Ásia. “É desleal. As regras não são as mesmas, principalmente em questão de custos e prazos”, desabafa o COO.
Ainda assim, a resposta tem passado pela adaptação — e pela inovação. “Temos de estar sempre um passo à frente. A concorrência é global e muito forte”, admite José Luís Barroso.
Mas é precisamente nessa pressão que a Siroco encontra o seu espaço. Num setor onde muitos competem pelo preço, a empresa portuguesa aposta na inovação. Quanto ao futuro, “queremos crescer, mas com a consciência de que o negócio será adaptado durante o processo de execução. Já não é possível fazer planos a cinco ou dez anos. A tecnologia está sempre a mudar. Todos os dias!”.
Siroco De Aveiro para o mundo, com engenharia feita à medida
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Começou com uma mudança de Braga para Aveiro e uma decisão em família. Dois líderes, também marido e mulher, a aprender um negócio de raiz. Hoje, a Siroco exporta para três continentes, desenvolve tecnologia de ponta e prova que, mesmo num setor altamente competitivo, há espaço para crescer com inovação e alguma teimosia à mistura.