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O verão está a derreter o tamanho dos produtos?

Chama-se reduflação e é um fenómeno que já existe há algum tempo. Ou seja, o consumidor paga o mesmo por menos produto. A embalagem muitas vezes não encolhe. Já deu por isso? Então fique atento!

Há pequenos sinais de que o verão chegou —, além do calor, claro! Uma bola de Berlim na praia, um gelado na esplanada... mas, há um detalhe subtil que tem passado ao lado de muitos consumidores. Alguns gelados estão a encolher.
O fenómeno chama-se reduflação e consiste, em pagar o mesmo (ou mais) por menos produto. Segundo avançou o jornal espanhol “El Economista”, um dos casos mais comentados nas redes sociais envolve os gelados Magnum, cujo tamanho terá passado de 120 ml para 100 ml, mantendo uma trajetória de preços em alta.
A discussão ganhou força online, onde consumidores comparam embalagens antigas e novas, muitas vezes com surpresa e alguma indignação.
A prática não é exclusiva de uma marca nem de um país. Na verdade, tornou-se quase uma arte subtil da indústria: reduzir discretamente o conteúdo, preservar a embalagem e esperar que o consumidor não dê por isso — pelo menos não à primeira dentada.
E não se limita aos gelados: “A reduflação pode verificar-se em produtos alimentares, como cereais, chocolates, queijos, cremes para barrar, bebidas e pão; produtos para bebés e crianças, como papas infantis e fraldas; produtos de higiene e cuidados pessoais; refeições prontas e doses servidas em restaurantes ou lojas de pronto-a-comer”, enumera Soraia Franco Leite, diretora de Relações Institucionais da DECO PROteste.
Em alguns casos, a embalagem mantém-se praticamente inalterada, o que contribui para a sensação pegando no caso do gelado de que este “acabou depressa demais”.
A lógica por trás da reduflação é, em grande medida, psicológica. Os consumidores tendem a reagir mais negativamente a aumentos diretos de preço do que a pequenas reduções na quantidade. Resultado: as empresas mantêm o número no rótulo e ajustam o que está lá dentro.
No fundo, é uma espécie de inflação silenciosa — menos visível, mas não menos real.
“Por exemplo, se uma garrafa de sumo de um litro custava 1 euro e passa a ter apenas 900 mililitros pelo mesmo preço, o consumidor continua a pagar 1 euro pela embalagem, mas o preço real por litro sobe para cerca de 1,11 euros.”, diz Soraia Franco Leite.
Para a especialista, o desafio para o consumidor é que esta subida pode passar despercebida, sobretudo quando a embalagem mantém um formato, uma imagem e um preço semelhante aos anteriormente existentes.
Em Portugal, tal como na maioria dos países europeus, a prática não é ilegal. Desde que o peso ou volume indicado corresponda ao conteúdo real, não há infração. Ainda assim, isso não significa que seja totalmente clara.
“Seria diferente se, por exemplo, uma embalagem anunciasse um quilo de produto, mas contivesse apenas 900 gramas. Nesse caso, estaríamos perante informação falsa e uma possível fraude”, considera a responsável da DECO PROteste, acrescentando: “A reduflação pode suscitar problemas de transparência e pode induzir o consumidor em erro quando a redução da quantidade não é comunicada de forma clara”.
A associação tem defendido maior clareza na comunicação destas alterações, nomeadamente através de avisos visíveis nas embalagens ou nas prateleiras.
É precisamente essa zona cinzenta que começa a ser alvo de atenção em alguns países. Em França, por exemplo, os supermercados passaram a ser obrigados a sinalizar produtos cujo tamanho foi reduzido, indicando a alteração diretamente na prateleira. A Alemanha também já teve decisões judiciais que reforçam a necessidade de avisos claros quando há mudanças significativas no peso dos produtos.
Por cá, essa obrigação ainda não existe.
E, para já, cabe sobretudo ao consumidor fazer o trabalho de comparação — nem sempre fácil no dia a dia. “A comparação deve ser feita com base no preço por unidade de medida”, sublinha a DECO PROteste. E, se o gelado parecer desaparecer mais depressa do que o habitual, talvez não seja só o calor a fazer das suas.
Guardar talões ou comparar regularmente produtos pode ajudar a detetar estas mudanças ao longo do tempo. “Uma fotografia de uma embalagem antiga ou um talão de compras anterior também pode ajudar a confirmar se a quantidade foi reduzida”,
A especialista refere ainda que o objetivo não deve ser impedir as empresas de alterarem os formatos, mas garantir que o consumidor percebe facilmente que está a receber menos produto. Quanto a Portugal, Soraia Franco diz não terem dados atualizados para indicar marcas que a tenham praticado.

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