Três horas antes do fecho definitivo da contagem dos votos nas eleições húngaras deste domingo, o líder do país nos últimos 16 anos, Viktor Orbán, deu publicamente os parabéns ao seu mais direto adversário, Péter Magyar, dando indicações de que aceitava a derrota. Chegava assim ao fim mais de uma década e meia em que Orbán assumiu enormes dúvidas sobre a vantagem de o seu país pertencer à União Europeia e mante a sua ação política muito próxima da Rússia – mesmo quando a questão era a invasão da Ucrânia.
Neste contexto, a Rússia é um dos derrotados desta noite, dado que fez tudo para apoiar o seu correligionário de sempre, A ajuda acabou por ser contraproducente: o escândalo de ‘espionagem’ que envolveu o até agora ministro dos Negócios Estrangeiros – que tudo contava ao seu homólogo russo sobre as reuniões restritas da União Europeia – contribuiu diretamente para a derrota de Orbán, uma vez que expôs uma relação ‘tóxica’ de que muitos húngaros apenas desconfiavam.
O outro derrotado externo são os Estados Unidos, que também trataram de impor uma forte pressão sobre os húngaros para que votassem na manutenção de Viktor Orbán no cargo. A pressão dificilmente podia ser mais explícita: o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, esteve presente esta semana num ato de campanha, para explicar aos húngaros – e para horror dos líderes da Comissão Europeia – que Orbán seria a sua melhor opção.
O que não se sabe ao certo é se a Comissão pode ser considerava vitoriosa nas eleições húngaras. É que Magyar é originariamente oriundo do partido de Orbán, o Fidesz, o que indica que, no mínimo foi em algum tempo da sua vida política tão euro-cético quanto Viktor Orbán.
‘Desligar’ Druzhba?
Aliás, vale a pena recordar que Magyar fez comentários pouco claros sobre o oleoduto Druzhba (Rússia–Ucrânia–Hungria), que levou Orbán a suspender o seu apoio ao financiamento de 90 mil milhões de euros à Ucrânia para prover as suas necessidades orçamentais para 2026. Magyar criticou o governo de Viktor Orbán por usar o problema do oleoduto e da segurança energética como ferramenta política nas eleições e acusou o executivo de alimentar o medo em torno do assunto.
Defendeu uma abordagem mais baseada em factos e cooperação técnica, incluindo inspeções independentes do oleoduto, mas em nenhuma circunstância terá dito que estava interessado em suspender as compras de energia à Rússia. Em princípio, isto quer dizes que a Hungria pode continuar a ‘desobedecer’ à Comissão Europeia – uma vez que, se não o fizer, o novo governo terá pela frente um evidente problema orçamental, que Magyar quererá por todos os meios evitar.
De qualquer modo, em termos genéricos, o futuro chefe do governo húngaro tem sido bem mais simpático que o seu antecessor para com a União Europeia, dizendo que dela não se quer desvincular.
As eleições foram muito participadas, dando a entender a urgência de mudança entre os magiares: a participação eleitoral foi de 77,8%, a maior já registada numa eleição húngara. O parlamento tem 199 lugares e existe a obrigação de os partidos atingirem um mínimo de 5% para entrarem. Tisza, Fidesz–KDNP (a coligação do governo em funções) e o Movimento Nossa Pátria são os partidos mais importantes, todos de direita ou de extrema-direita. A Coligação Democrática é a única organização de centro-esquerda com algumas pretensões políticas.
O presidente francês, Emmanuel Macron, foi o primeiro a dar os parabéns ao líder do Tisza, tendo revelado que lhe telefonou mal se apercebeu da sua vitória. “A França saúda uma vitória da participação democrática, do apego do povo húngaro aos valores da União Europeia e da Hungria na Europa”, escreveu Macron nas redes sociais. “Juntos, vamos promover uma Europa mais soberana, pela segurança do nosso continente, pela nossa competitividade e pela nossa democracia”.