A insanidade associada à condução da guerra contra o Irão tomou um novo alento este fim-de-semana, quando, na sequência do antecipado fracasso das negociações entre norte-americanos e iranianos em Islamabad, capital do Paquistão, o presidente Donald Trump anunciou que bloquearia o Estreito de Ormuz. Num primeiro momento, parecia difícil bloquear um estreito que já estava bloqueado, mas a explicação surgiu pouco tempo depois: "Com efeito imediato, a Marinha dos Estados Unidos, a melhor do mundo, iniciará o processo de BLOQUEIO de todos os navios que tentarem entrar ou sair do Estreito de Ormuz", escreveu nas redes sociais. "Também instruí a nossa Marinha a encontrar e intercetar todas as embarcações em águas internacionais que tenham pago portagem ao Irão. Ninguém que pagar uma portagem ilegal terá passagem segura em alto-mar", acrescentou Trump. Estava explicado: os navios que aceitarem ultrapassar o bloqueio do Irão (pagando) defrontar-se-ão com outro bloqueio logo de seguida, desta vez imposto pela melhor Marinha o mundo, a dos Estados Unidos. Ficou por saber-se se a melhor Marinha do mundo tem ordens para afundar os navios que tentarem furar este segundo bloqueio.
Mais espantoso ainda, um pouco mais tarde no fim-de-semana, Trump disse à Fox News que os aliados da NATO, fortemente criticados por não apoiarem a guerra que iniciou com Israel a 28 de fevereiro, querem ajudar na operação de bloqueio ao bloquei no Estreito de Ormuz. Perante a inexistência de comentários dos referidos aliados de Washington sobre o alegado apoio, uma de duas situações surge como plausível: ou os líderes dos governos aliados europeus não estão disponíveis para trabalharem ao fim-de-semana, ou a alegação de Trump é pura invenção. Aguarda-se com expectativa a explicação do secretário-geral da NATO, o neerlandês Mark Rutte, que costuma engendrar explicações alternativas para as palavras inexplicáveis do seu líder supremo.
Trump disse ainda no domingo que a Marinha vai tratar de ‘limpar’ das minas anti-navio que os iranianos por ali terão espalhado e assegurou que "qualquer iraniano que atirar contra nós, ou contra embarcações pacíficas, será EXPLODIDO NO INFERNO!".
E também disse esperar que os iranianos regressassem à mesa das negociações e "nos deem tudo o que queremos" – o que não surge como muito plausível – ao mesmo tempo que cada lado culpou o outro pelo fracasso do encontro em Islamabad. "A má notícia é que não chegámos a um acordo, e acho que isso é uma notícia muito pior para o Irão do que para os Estados Unidos da América", disse o vice-presidente JD Vance, que chefiou a delegação norte-americana nas negociações em Islamabad. Vance afirmou que o Irão optou por não aceitar os termos norte-americanos, incluindo a proibição de construir armas nucleares. "Eu poderia entrar em detalhes e falar sobre muita coisa que já foi conquistada, mas só uma coisa importa: O IRÃ NÃO ESTÁ DISPOSTO A ABANDONAR AS SUAS AMBIÇÕES NUCLEARES!", disse Trump mais tarde.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, que liderou a delegação do seu país juntamente com o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, culpou os Estados Unidos por não conquistarem a confiança de Teerão, apesar de a sua equipa ter oferecido "iniciativas voltadas para o futuro". "Os Estados Unidos entenderam a lógica e os princípios do Irão e é hora de eles decidirem se podem ou não conquistar a nossa confiança", disse Qalibaf nas redes sociais.
A agência de notícias semioficial iraniana Tasnim afirmou que as exigências "excessivas" dos Estados Unidos impediram a obtenção de um acordo. Outros meios de comunicação iranianos disseram que havia concordância em várias questões, mas o Estreito de Ormuz e o programa nuclear iraniano eram os principais pontos de divergência.
Para os analistas, o ponto crítico é que as duas delegações deixaram o Paquistão sem se terem preocupado em agendar um segundo encontro, o que diz sem margem para dúvidas que o esforço deste fim-de-semana está encerrado. Resta saber quando (e não ‘se’) o cessar-fogo vai ser deixar de valer e a guerra recomeçar.
O ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, afirmou ser "imperativo" preservar o cessar-fogo. Em discurso em Roma, o Papa Leão XIII também pediu um cessar-fogo duradouro e expressou a sua proximidade com o "amado povo libanês".
Israel continua a bombardear o Líbano
Ora, o “amado povo libanês” continuou a ser bombardeado pelo povo judaico ao longo de todo o fim-de-semana, nomeadamente nas longas horas em que as negociações estavam em curso na capital paquistanesa. O exército israelita afirmou ter atacado lançadores de foguetes do Hezbollah durante a madrugada de domingo, instalados nos subúrbios do sul de Beirute, capital do Líbano.
Apesar das divergências em Islamabad, três superpetroleiros totalmente carregados de petróleo atravessaram o Estreito de Ormuz no sábado, segundo dados de navegação, naqueles que parecem ser os primeiros navios a deixar o Golfo desde o acordo de cessar-fogo. Segundo esses dados, os três navios foram: o Serifos, carregado com crude saudita e dos Emirados com destino à Malásia; o Cospearl Lake, com crude iraquiano para a China; e o He Rong Hai, com crude saudita, com destino desconhecido.
Pressão sobre o preço do petróleo
O fracasso das negociações irá por certo fazer disparar o preço do crude e do gás natural logo na abertura dos mercados, esta manhã. Depois do cessar-fogo, a 7 de abril, o brent tinha caído de mais de 110 dólares por barril, para os 94-95, dólares. No fim-de-semana, o preço já tinha recuperado para 98-99 dólares e os analistas estão certos que esta manhã a barreira dos 100 dólares será rapidamente ultrapassada.
No gás natural, o TTF (referência europeia) caiu 18% na passada quarta-feira para os 44 dólares/MWh, depois do anúncio do cessar-fogo. Chegou a subir um pouco no dia seguinte, mas voltou àquele preço na passada sexta-feira – mas os analistas afirmam que, tal como com o crude, os preços vão aumentar rapidamente.
Em Wall Street, o fim de semana impõe uma pausa as índices: S&P 500, Dow Jones Industrial Average e Nasdaq Composite estão fechados. Mas os futuros já reagiram negativamente mal foi conhecido o falhanço das negociações e o aumento do risco no Estreito de Ormuz. Os futuros do Dow Jones estavam este domingo em queda forte, um sinal claro de abertura em baixa, o mesmo sucedendo aos futuros do S&P 500 e do Nasdaq. A perspetiva do petróleo acima dos 100 dólares, a forte possibilidade de a inflação voltar a subir – o que fará com que a Reserva Federal (Fed) trate de manter os juros altos por mais tempo – são os maiores temores do mercado de capitais. Recorde-se que, na semana passada, o Dow Jones subiu 3%, o S&P 500 aumentou 3,6% e o Nasdaq apreciou 4,7%.
Nos mercados ‘paralelos’, as bitcoin e ativos de risco também recuaram, sinal clássico de ‘risk-off’ (refúgio) que costuma acompanhar as descidas no mercado ‘clássico’.
No final de domingo, o ouro permanecia estável por volta dos 4.750 dólares por onça.