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Nunca os EUA venderam tanto petróleo para o exterior

Setenta petroleiros vazios vão a caminho dos EUA, muito acima da média registada antes da guerra. Países asiáticos procuram desesperadamente por petróleo após o fecho do estreito de Ormuz.

"Compre quando houver sangue nas ruas"... a famosa frase do Barão de Rothschild é usada como mote para comprar ativos desvalorizados em momentos de crise na esperança de vender mais tarde por preços mais altos, mas também serve para demonstrar que em tempos mais sombrios há sempre quem consiga fazer bons negócios, em detrimento de quem perde.

É o caso dos Estados Unidos da América (EUA) que estão à beira de atingir um recorde de exportações de petróleo à boleia da corrida mundial ao crude devido à guerra no Médio Oriente.

O recorde deverá ser atingido durante este mês de abril com os clientes asiáticos à procura de novos fornecedores devido ao fecho do estreito de Ormuz.

"Uma armada de petroleiros está a caminho" dos EUA, disse ao "Financial Times" o analista da Kpler Matt Smith.

As exportações devem subir dos 4 milhões de barris diários em março para mais de 5 milhões de barris por dia. O peso dos clientes asiáticos vai subir mais de 80%, segundo dados da Kpler, citados pelo "Financial Times".

Neste momento, existem quase 70 petroleiros vazios a caminho dos EUA, uma subida face aos 24 registados na semana antes ao início da guerra. A média semanal de 2025 foi de quase 30 petroleiros.

Os EUA são atualmente o maior produtor mundial de petróleo e de gás. O aumento na procura asiática deverá aumentar os preços da energia americana, podendo provocar uma nova vaga de inflação causada pela guerra no Médio Oriente.

A Ásia compra 80% do seu petróleo e combustíveis a países do estreito de Ormuz, com destaque para a China.

"A China é menos vulnerável do que outros países a fecho do Estreito de Ormuz’, disse Christiaan Tuntono, economista da AllianzGI.

"O fecho do Estreito de Ormuz deverá ter um impacto menor na China do que em outros países asiáticos, já que o antigo Império do Meio depende pouco da energia importada, tem uma matriz energética bem diversificada, acumulou reservas mais elevadas e os preços domésticos dos combustíveis para os consumidores finais flutuam dentro de uma estrutura controlada pelo Estado", segundo o analista.

Já a Schroders destaca que o "volume de navios que atravessam o estreito terá de aumentar significativamente nas próximas duas semanas para que o mercado petrolífero se convença de que a crise terminou".

"Levará semanas ou mesmo meses até que os níveis de produção regressem ao normal, tendo em conta os 10 milhões de barris por dia de produção suspensa e os danos causados a algumas instalações. Isto deverá significar que é improvável que os preços do petróleo do mês mais próximo caiam rapidamente para os níveis anteriores ao conflito", segundo Malcolm Melville.

A XTB sublinhou que a "reação dos mercados é clara: qualquer progresso diplomático que permita aliviar ainda mais as tensões entre o Irão e os EUA tenderá a levar a novas correções nos preços do petróleo, ao mesmo tempo que terá um impacto positivo para ativos de risco", referindo-se à queda nos preços após o anúncio do cessar-fogo.

"No entanto, enquanto subsistirem focos de tensão e ataques indiretos, a volatilidade permanecerá incorporada nos preços, particularmente nos mercados de energia e nas divisas associadas a matérias-primas", segundo os analistas.

Apesar de estar em vigor um cessar-fogo, restam muitas dúvidas sobre se será duradouro e se as negociações entre Washington em Teerão, mediadas pelo Paquistão, conseguem chegar a bom porto.

Israel disse que o Líbano não estava sujeito ao cessar-fogo e voltou a atacar o seu país vizinho. O Irão não gostou e ameaçou voltar a fechar o estreito de Ormuz.

O fecho do estreito de Ormuz pelo Irão após os ataques do EUA/Israel provocaram uma nova crise energética mundial, com os preços do petróleo com subidas de 50% até o cessar-fogo ser anunciado.

Em ano de eleições intercalares, 70% dos inquiridos numa sondagem nos EUA revelou estar preocupada com a subida dos preços da energia. Enquanto os preços de energia dispararam, a taxa de aprovação de Trump tem afundado.

Os EUA anunciaram a libertação de mais de 170 milhões de barris de petróleo das reservas estratégicas, mas os analistas consideram que este petróleo pode vir a ser comprado por clientes estrangeiros desesperados por novos fornecedores.

"Dado que a administração americana está a tentar manter os preços do petróleo baixos, as suas ações têm tornado o petróleo dos EUA mais atraente", disse Matt Smith da Kpler.

Crescem o número de pessoas a defender a suspensão da exportações dos EUA. Um congressista democrata defende uma medida para colocar os "consumidores americanos em primeiro lugar ao garantir que os recursos energéticos são usados para estabilizar preços" no país, segundo Brad Sherman.

A Casa Branca tem rejeitado banir as exportações, o que deveria provocar um corte de produção pelas refinarias.