Apesar de a procura por investimento ter sido o principal motor do mercado no ano passado, as compras de ouro por bancos centrais mantiveram-se bastante acima da média pré-2022, quando registaram um disparo de mais de 100%. Das 863,3 toneladas compradas em 2025, há movimentos que importa sublinhar, sobretudo na China, que continua a desafiar o papel dominante dos EUA com venda massiva de títulos denominados em dólar norte-americano.
A Polónia foi o maior comprador formal no ano passado, segundo dados do WGC, chegando a reservas superiores às do Banco Central Europeu (BCE), enquanto o Cazaquistão, Brasil, Turquia e Azerbaijão se seguiram na lista. Em sentido inverso, Singapura, Rússia e Jordânia registaram vendas líquidas.
Fora deste ranking fica a China, embora fevereiro tenha sido o 15º mês consecutivo de compras pelo banco central – isto julgando pelos dados oficiais, tipicamente sub-representados. Esta tendência parece incluir-se num movimento de mercado mais amplo que, não correspondendo propriamente a uma desdolarização, mostra uma menor dependência mundial da moeda norte-americana.
Filipe Garcia projeta que o dólar se mantenha como a divisa dominante, mas nota alterações de paradigma: há agora “alguns agentes europeus a questionar se não estaremos demasiado expostos aos EUA”, o Financial Times faz capa “a perguntar que alternativas terá a economia europeia aos ativos americanos” e vários países não-aliados de Washington interrogam-se se um peso significativo de títulos de dívida norte-americanos não os deixarão “um pouco nas mãos dos EUA”.
“A China entende que, na sua luta pela hegemonia com os EUA, é uma vulnerabilidade ter muitos ativos norte-americanos”, explica. Desde 2013, Pequim, o maior credor dos EUA, desfez-se de metade do stock de dívida norte-americana e, segundo dados estatais, detinha em setembro 298 mil milhões de dólares (250,8 mil milhões de euros) em títulos norte-americanos, embora não seja claro quantos destes são públicos e privados.
Mais recentemente, o governo chinês instruiu os bancos comerciais a reduzirem a sua exposição aos EUA, citando a volatilidade do mercado. Julgando pelos comentários de Trump, que reiterou no final de janeiro querer um dólar mais fraco, a Casa Branca estará confortável com a tendência.
Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, diz compreender a estratégia dada a vontade explícita do presidente de “revitalizar a indústria”, mas vê também a tendência nos países do Sul Global de se aproximarem de Pequim por oposição a Washington.
“Por exemplo, a China já compra petróleo ao Irão e paga parte em renminbis. E o mesmo com a Indonésia, Vietname, aqueles países do Sudeste Asiático – ou seja, o Círculo de Valeriepieris, que concentra mais de metade da população mundial, começa a ganhar peso e a deslocar-se para fora do centro gravitacional e hegemónico a nível global”, expõe.
“Faz-me alguma confusão, para dizer a verdade, que os EUA se mostrem pouco preocupados com isto. Em rigor, o dólar deveria ser, é e tem sido uma peça importantíssima na hegemonia americana – por isso, tudo o que possa ser feito para perturbar essa hegemonia é maus negócio” para Washington, remata Filipe Garcia.
China força diluição do valor do dólar com venda de títulos
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Mais do que um real processo de desdolarização, vários países têm reduzido exposição aos EUA, com destaque para o Sul Global, e o ouro entrou na luta hegemónica.