Uma reunião sem novidades, mas com detalhes de relevo: o Banco Central Europeu (BCE) arrancou o ano mantendo os juros sem mexidas pela quinta vez consecutiva, isto apesar da força do euro nas últimas semanas. Christine Lagarde não fugiu ao assunto, reconhecendo que este foi debatido e é monitorizado pelo banco, mas reiterou o conforto com a situação atual. Pelo meio, deixou ainda reparos a Trump e à destruição da ordem do comércio mundial.
Sem surpresa, a autoridade monetária deixou os juros de referência inalterados entre 2 e 2,4%, em linha com o antecipado pelo mercado. Na nota que comunicou a decisão desta quinta-feira, o BCE considera que “a economia continua resistente perante um ambiente global desafiante”, destacando o baixo desemprego, balanços privados sólidos e o esforço orçamental de vários países nos próximos semestres para estimular a economia, sobretudo via sectores da defesa e infraestrutura.
Esta avaliação surge depois de a economia europeia ter surpreendido no final do ano passado, ao conseguir um crescimento de 0,3% em cadeia, e apesar da forte valorização do euro, que aumenta os riscos de novo ciclo de inflação abaixo do objetivo de 2% do banco. Lagarde reconheceu que a situação cambial foi debatida, mas não se mostrou preocupada.
“O que observamos é que o dólar tem desvalorizado contra o euro, sim, mas não apenas recentemente; é algo que se verifica desde março passado”, retificou, acrescentando que, “nas últimas semanas, desde o verão, tem flutuado ao longo de um intervalo” que se tem mantido.
Como tal, “o impacto disto está incorporado na nossa análise” de risco, garantiu, frisando que o foco do banco central está na transmissão destas flutuações à economia real.
Recorde-se que a moeda única está em máximos numa análise ponderada com base num cabaz de outras divisas e nos fluxos comerciais do bloco, levando os analistas a colocar em cima da mesa novas descidas este ano.
“Quer seja motivado por um desconforto do mercado ou pela apreciação do euro, há um risco de a inflação ficar abaixo do objetivo nos próximos meses”, lê-se numa nota do banco ING. “Apesar de ninguém avaliar isto como um risco deflacionário, leituras abaixo do objetivo podem levantar dúvidas sobre quão simétrico será a meta para a inflação e, portanto, encorajar as ‘pombas’ do BCE a pedirem um corte.”
No entanto, Lagarde ripostou, lembrando que “há muito tempo que projetamos que a inflação não alcance o objetivo em 2026”, apontando às projeções macroeconómicas lançadas ao longo do ano anterior. Ao mesmo tempo, “olhando para o médio prazo, estamos no objetivo em 2027 e 2028”, pelo que a situação permanece favorável, ainda que reconheça uma atenção redobrada nos serviços e ainda sobre os salários.
“Nada de fundamental se alterou no cenário base”, rematou.
Além das considerações sobre o mercado cambial, que reuniam a maior expectativa dos mercados e analistas, Lagarde deixou ainda algumas indiretas à administração norte-americana a propósito da afirmação de uma divisa a nível global.
A presidente do BCE defendeu que uma divisa, “para ter um papel internacional, tem de cumprir certos requisitos”, como “um ambiente estável e seguro, em que a lei é conhecida e respeitada”, e “capacidade para fazer trocas com o resto do mundo” – algo reforçado no caso europeu pelos acordos comerciais recentes com a Mercosul e a Índia.
“Não é por se ter uma moeda internacional com um papel global que isso implica força relativamente aos outros”, resumiu, argumentando que “há atualmente uma divisa com esse papel, mas que não se conjuga necessariamente com força”.
BCE não mexe nos juros e admite atenção aos câmbios
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Com o euro em máximos numa análise ponderada, Lagarde reconheceu que está atenta à situação, mas procurou mostrar conforto. “Nada de fundamental se alterou no cenário base”, resumiu.