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“Vamos resistir até onde o dinheiro disser que podemos resistir”

É uma declaração que sintetiza o momento. Os fundos norte-americanos olham para Portugal como um mercado muito atrativo. A centralização dos direitos televisivos e o Mundial 2030 podem acelerar este processo encarado como inevitável.

Já cá estão, mas até ao final da década, a sua presença vai intensificar-se. O futebol português vai sentir nos próximos anos um interesse cada vez maior, com a centralização dos direitos televisivos e a realização do Mundial a marcarem o ritmo de uma mudança que muitos especialistas encaram como inevitável. Em 2018, os fundos norte-americanos controlavam 36 clubes europeus e apenas sete anos depois, em 2025, essa contabilização já chegava aos 144 emblemas do “velho continente”, de acordo com a contabilização do CIES Sports Intelligence. Por ano, e só na Europa, os fundos dos EUA movimentam dezenas de milhares de milhões de euros em aquisições, financiamento de infraestruturas e direitos de transmissão, tal como destaca o Centro Internacional de Estudos do Desporto no relatório mais recente sobre estes fundos. Mas este estudo diz-nos mais: estes investidores já representam quase metade dos grupos de propriedade multiclubes a nível global, numa mudança clara das dinâmicas financeiras e de transferências na Europa.
Nuno Mena, consultor especialista em Data, Conteúdo e Monetização em Organizações Desportivas e Entretenimento, realça ao JE que os fundos dos EUA já cá estão: “Já temos alguns investimentos, sobretudo na Liga 2, Liga 3 e até mais abaixo mas são pequenos e entram e saem de uma forma muito rápida”. E dá o exemplo do Atlético CP, liderado por um grupo de investimento americano, personificado por Gifford Miller, e que quer reinventar o clube através da gestão da SAD. Dá ainda o exemplo do Moreirense cuja SAD foi adquirida pelo fundo norte-americano Black Knight, liderado , um investimento global próximo de 16 milhões.
Assim, é de esperar que os norte-americanos continuem a investir e que protagonizem entradas de capital nestes clubes. A questão é quando é que estes fundos vão entrar nos grandes clubes portugueses? E nesta equação entram ainda o Vitória SC e o Famalicão. “Vamos resistir até onde o dinheiro disser que podemos resistir”. Estamos a falar de um esforço financeiro para esses fundos que não é nada de extraordinário em relação àquilo que pode trazer a algum destes clubes grandes. E o que podem os fundos norte-americanos trazer como mais-valia ao futebol português? Nuno Mena destaca a forma como se estão a criar plataformas globais de entretenimento, onde o futebol assume-se já como um protagonista, e onde os fundos norte-americanos, pelo enorme conhecimento de grandes mercados, apresenta-se como um parceiro quase inevitável. Assim, não é indiferente para estes fundos que em Portugal estejam a acontecer dois fenómenos: a centralização dos direitos televisivos das Ligas profissionais de futebol e a adaptação e rentabilização dos estádios e de infraestruturas associadas a outro tipo de eventos que vão muito para além do desporto-rei. Além disso, Portugal apresenta academias de futebol com reconhecimento internacional como é o caso de Alcochete e do Seixal (por todo o talento que desenvolve, aproveita e exporta com muitos milhões a reverter para as SAD) e tem muita margem para crescer relativamente ao futebol feminino, que de acordo com o último relatório do BCG, já assegura receitas globais perto de 800 milhões de dólares anuais. Desta forma, os fundos norte-americanos entram num país com o objetivo de aceder a um mercado de forma direta e de conferir a esse universo uma profissionalização da governança que não existe em muitos países onde decidem investir, algo que muitas vezes contrasta de forma abrupta com o velho modelo de organizações de sócios que não têm uma lógica de negócio nem o conhecimento da indústria. Ao nível das infraestruturas, recorda Nuno Mena, é evidente a intenção específica dos fundos norte-americanos nesse tipo de investimento e isso foi visível no Manchester United (vai construir o maior estádio do Reino Unido com capacidade para 100 mil espetadores), os planos para o novo San Siro (que deverá custar 1,2 mil milhões).
Por outro lado, a componente digital e da exploração dos dados (de acordo com a consultora Precedence Research, este mercado de big data movimenta mais de 5,6 mil milhões de euros e deverá atingir 25 mil milhões até 2034) é extremamente apelativo para os fundos norte-americanos e Nuno Mena acredita que, a este nível, há todo um potencial para explorar no futebol europeu já que “as audiências globais da Premier League, por exemplo, são muitas vezes superiores a qualquer franquia norte-americana mas se olharmos para as contas, há muito menos receita por audiência”. Ou seja, há uma margem de crescimento brutal para monetizar essa audiência e isso significa que por muito alto que possa parecer um investimento num clube, a capacidade de rentabilização pode ser profícua para esse fundo: “É um investimento com um custo baixo porque tem a um potencial enorme”. Veja-se o que aconteceu aqui ao lado com o Atlético de Madrid com a entrada da Apollo Sports Capital na compra de uma participação de 55% do capital: o que este fundo propõe como mais-valia, para além da gestão, passa pela internacionalização da marca de forma que esta ganhe peso (e muitos milhões) numa plataforma global de investimento. Pode o mesmo acontecer em Portugal? É difícil e o que aconteceu recentemente no Benfica é prova disso.
Nuno Mena acredita que estes investidores poderão estar interessados em explorar um determinado objetivo estratégico como a construção ou valorização do património imobiliário: “Vejo como muito difícil uma venda da maioria do capital a um fundo, sobretudo a um fundo desta dimensão. Mas atenção: Portugal é um mercado cada vez mais apetecível porque ainda é barato e porque começa a gerar mais rentabilidade”.
Assim, estes fundos poderão tornar-se mais visíveis através de parcerias com a Liga e Federação numa lógica de promoção internacional e de exploração de ativos comerciais, através dos direitos televisivos. “Vamos ser alvo destes fundos”, vaticina este especialista.

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