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Teletrabalho ganha mais um argumento com a crise em Ormuz

Tendência : Empresas e trabalhadores podem estar a mitigar o custo de vida com teletrabalho, acelerando o crescimento do modelo, já em níveis máximos.

O teletrabalho está na ordem do dia em Portugal. Depois de batido o recorde de trabalhadores nesta modalidade no final de 2025, cinco anos após a pandemia, novos máximos podem estar à vista com a crise do estreito de Ormuz. Há sinais no horizonte.
“Admitimos que o aumento dos preços dos combustíveis esteja a motivar a aceleração desta tendência”, diz Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, ao Jornal Económico.
Nuno Troni, country head Search&Selection & Career Transition da empresa de recrutamento GI Group também partilha a perspetiva de que o aumento dos preços do petróleo e dos combustíveis, num contexto de instabilidade geopolítica, tende a reforçar a atratividade do teletrabalho em Portugal.
Ainterrupção do fluxo de petróleo e gás pelo estreito de Ormuz não só fez os preços dos combustíveis dispararem, como impactou todo o tipo de matérias primas, como fertilizantes para a agricultura, provocando a montante a subida dos preços nos supermercados. É nesta complexa equação que entra o factor teletrabalho.
“Num momento em que o país já regista níveis historicamente elevados de trabalho remoto, este fator económico - justifica o responsável da Gi Group - surge como um acelerador adicional, sobretudo para funções compatíveis com modelos híbridos ou totalmente remotos”.
Mais teletrabalho e menos carro foi precisamente o conselho dado, há dias, pelo comissário europeu da Energia, Dan Jorgensen, aos cidadãos dos 27, para poupar combustíveis face aos constrangimentos causados pela guerra no Médio Oriente.
Em Portugal, em termos de poupança, embora dependa da distância casa-trabalho e do tipo de viatura, Nuno Troni diz que é possível estimar que um trabalhador em regime remoto possa poupar, em média, entre 25 a 50 euros por semana em combustível, o que representa um alívio relevante no orçamento mensal. “Este fator, aliado a ganhos de tempo e produtividade, contribui para consolidar o teletrabalho como uma tendência estrutural e não apenas conjuntural”, salienta.
A Gi Group confirma que tem vindo a observar do lado das empresas “uma maior abertura para flexibilizar políticas de presença”. Não apenas como resposta ao aumento dos custos para os colaboradores, mas também como forma de reforçar a proposta de valor enquanto empregador, refere Nuno Troni. Em vários casos, adianta, “o teletrabalho está a ser encarado como uma medida de mitigação indireta do impacto do custo de vida”.
Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP, faz notar que não se trata de uma medida a que as empresas recorram unilateralmente. Não. “Estaremos, provavelmente, perante uma maior utilização do teletrabalho por acordo entre trabalhadores e seus empregadores, nos casos em que tal modalidade é possível”, explica ao JE.
Seja como for, a consolidação da tendência já vinha de trás. Os dados do INE para o quarto trimestre de 2025 referem que 1,129 milhões de trabalhadores indicaram ter trabalhado em casa, a grande maioria utilizando tecnologias de informação e comunicação nas suas funções. Equivale a 21,2% da população empregada e é o valor absoluto mais alto de sempre na série do INE que arranca na primavera de 2022, já com uma metodologia que não permite comparações com o tempo da pandemia. 
O modelo mais comum e que mais aumentou, é o sistema híbrido, aquele que combina, de forma regular, alguns dias por semana de trabalho a partir de casa com trabalho presencial nos restantes dias.
O estudo “Teletrabalho em Portugal: desafios e oportunidades do futuro”, realizado pela Gi Group em parceria com a Worx Real Estate Consultants, divulgado na reta final de 2025, destaca a modalidade como uma componente central na gestão de talento e do mercado de trabalho e na dinâmica do mercado imobiliário português. O trabalho remoto deixou de ser uma solução alternativa, uma tendência conjuntural para se tornar uma capacidade estrutural em muitas empresas e organizações.
“Não vai voltar atrás”, repete Nuno Troni. O debate atual já não é se o teletrabalho deve ser adotado, mas sobre como deve ser gerido o modelo de forma sustentável. “Depois do salário, o regime de trabalho é hoje o fator que mais pesa nas decisões profissionais. Este modelo veio consolidar-se como resposta à procura de flexibilidade e bem-estar, mas exige das empresas novas formas de reforçar a cultura e a ligação entre as pessoas”, adianta Nuno Troni.
Ou seja, mesmo que por um golpe de magia a paz regressasse hoje mesmo ao Médio Oriente, a trajetória de consolidação do teletrabalho em Portugal não se alteraria.

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