Longe de uma resolução, a crise na habitação vai ganhando novas camadas: entre 2019, ano que antecedeu a pandemia, e 2025, os preços das casas subiram, em média, 91,8% no último trimestre. Mas nesse mesmo período, o rendimento médio líquido (nominal) melhorou 43,3%, de acordo com as contas do Jornal Económico, com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística. Ou seja, o ritmo de subida nas casas foi mais do que o dobro do crescimento salarial.
O diferencial entre os dois crescimentos, na verdade, já foi bem mais acentuado. Se considerarmos os números desde 2016, o rendimento médio líquido subiu 53,3%, enquanto o índice de preços da habitação saltou 155,7%.
E se a conta for feita desde 2023, por outro lado, a diferença é de 20,4% para 32,6%. Estes dados, porém, não deixam de ser reveladores: entre 2023 e 2025, os aumentos salariais foram, em média, historicamente elevados, superando largamente (para quem os recebeu) a inflação desse período. Serviram para compensar a perda de rendimento em 2022 e 2023, na sequência da inflação pós-guerra da Ucrânia. E, mesmo assim, não foi suficiente para acompanhar a escalada dos preços da habitação. Só no último ano, a subida nas casas foi de 18,9%.
Estes valores somam-se a outros indicadores e estudos noticiados recentemente, que dão novos números a um cenário que já se sabia sombrio. No mês passado, o Banco de Portugal sinalizou que, para comprar uma casa de área e preços medianos em Lisboa, uma família de rendimento mediano teria uma taxa de esforço teórica de 102% no empréstimo. No caso do Porto, a prestação significaria 84% do rendimento. Por outras palavras, inacessível para a classe média.
Já esta semana, o Eurostat atualizou dados dos preços da habitação, mostrando que Portugal foi o segundo país com maior subida entre 2015 e 2025 — 175% na comparação dos respetivos quartos trimestres. Só a Hungria teve um valor mais alto.
O ano de base para esta comparação, avisam vários especialistas, está longe de ser o melhor, porque em 2015 os preços ainda estavam afetados pela crise. Mas face a 2019, em que o problema já não se coloca, a posição de Portugal não muda muito — ultrapassado pela Lituânia, teve a terceira maior subida.
Estes dados do gabinete de estatísticas europeu mostram bem o sobreaquecimento em vários mercados. Mas não permitem saber a que nível estão os preços (o índice do Eurostat não o explicita, indicando apenas a dimensão da subida em cada momento). O acréscimo pode ou não ter sido suficiente para tornar as casas mais caras do que as de países comparáveis.
Preços das casas subiram mais do dobro dos salários desde 2019
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Crise habitacional : Desde o pré-pandemia, o preço da habitação em Portugal cresceu 92%, enquanto o salário médio líquido subiu 42%. Estados-membros de baixos rendimentos têm tido as maiores escaladas de preços das casas. Portugal teve a terceira mais elevada nos últimos seis anos.