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Só há reservas de gasóleo para um mês

Energia : Chegam vários avisos para riscos de escassez de combustível se a guerra continuar. A situação é mais crítica no combustível para aviões e gasóleo, com o país e a Europa mais dependentes de fornecedores no Golfo Pérsico.

Mario Draghi, onde andas? O italiano bem que tinha avisado para a “agonia lenta” da indústria europeia, mas ninguém fez caso. Agora, todos perceberam. Afinal, o problema não é o petróleo, como todos pensaram no início da guerra, mas sim os combustíveis. A guerra no Médio Oriente revelou duas coisas: a dependência excessiva da Europa do Golfo Pérsico nos combustíveis e a confirmação da decadência industrial da Europa, obrigada a depender das refinarias do Médio Oriente para abastecer carros e aviões.
Isto também afeta Portugal, obviamente. Já não se trata só de subida do preço, mas também de disponibilidade destes produtos petrolíferos.
As reservas de gasóleo físicas do país cobrem menos de um mês de consumo, tendo em conta o nível de consumo nos dois últimos anos. No final de 2025, as reservas físicas estavam abaixo das 300 mil toneladas, quando o país consumiu em média mais de 350 mil toneladas em todos os meses de 2024 e 2025, segundo a ENSE.
A questão nem é tanto a compra direta ao Golfo Pérsico por parte de Portugal, mas as disponibilidades de produto no mercado, se começar a falta gasóleo noutras partes do mundo.
Olhando para 2024, a quase totalidade do gasóleo comprado ao exterior em Portugal teve origem em Espanha, pesando 85% nas importações, seguida dos Países Baixos com 14%.
Mas o gasóleo importado corresponde apenas a 25% do consumo do país, com 75% a ser produzido na única refinaria nacional, a da Galp em Sines. O país também exporta gasóleo, com Marrocos a ser o principal destino, pesando um terço nas exportações.
O problema foi levantado esta semana pelo BNPParibas. “Os stocks europeus garantem apenas solução temporária: Na Europa, os níveis de reservas continuam, para já, a assegurar alguma estabilidade, com stocks de diesel equivalentes a cerca de 71 dias de consumo e de jet fuel a cerca de 50 dias”, estimando que Portugal tem 30 dias.
“Dependência crescente de importações agrava vulnerabilidade. A redução da capacidade de refinação na Europa nas últimas décadas aumentou a dependência de importações, sobretudo da Ásia e do Médio Oriente, que atualmente representam uma parte significativa do abastecimento europeu, especialmente no caso do diesel e do combustível de aviação”, de acordo com o banco francês.
Reconhecendo que “até ao momento, não se registam constrangimentos físicos no abastecimento na Europa”, mas o “mercado deverá continuar sob pressão nas próximas semanas, sendo já referida no setor da aviação uma visibilidade limitada quanto à disponibilidade de combustível para além de um horizonte de 5 a 6 semanas”, pode-se ler.
Mais de 60% das importações de combustível para aviões de Portugal vem do Golfo Pérsico. Os preços mais do que dobraram desde o início da guerra no Médio Oriente, depois do Irão ter fechado o estreito de Ormuz. Portugal compra 25% do jet fuel que consome a países estrangeiros.
O Kuwait foi mesmo o maior fornecedor estrangeiro de Portugal de jet fuel em 2024, com 241 mil toneladas. Na quarta posição, a Arábia Saudita forneceu 47 mil toneladas. Na segunda e terceira posições, surgem a Coreia do Sul com 112 mil toneladas e a China com 62 mil. Do total consumido em Portugal, 75% do jet tem origem na única refinaria nacional, a da Galp.
A Ryanair avisou recentemente para o risco de escassez de combustível para aviões. Se a guerra terminar este mês e o estreito de Ormuz reabrir, não há risco de fornecimento. Caso contrário, vai haver escassez em maio.

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