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“Receio que se comecem a afunilar as alternativas de financiamento”

Maria Soares do Lago, da Morais Leitão, apela às PME para que evoluam na transição sustentável, apesar da “simplificação” nas diretivas de reporte.

Maria Soares do Lago receia um baixar de guarda à boleia da simplificação dos requisitos associados às diretivas de reporte e de due dilligence das empresas em matéria de sustentabilidade, recentemente aprovada pela União Europeia.
“Se as empresas não conseguirem evoluir nesse sentido, a sua vida vai começar a ser cada vez mais difícil”, disse a sócia da Morais Leitão no Fórum Banca 2026, do Jornal Económico.
A advogada, cuja atividade se centra nas áreas do direito bancário e financeiro, admite que “não é fácil ter esta conversa” (transição para a sustentabilidade) com “empresas pequenas que, às vezes têm dificuldade até para manter os empregados e pagar os salários ao fim do mês”, mas considera-a fundamental. Sobretudo porque qualquer beliscadura nessa direção poderá ter um efeito bola de neve. Tanto os bancos como as grandes empresas que fornecem e com que se relacionam, já, estão no patamar seguinte.
“Tenho receio que comecem a afunilar muito as alternativas de financiamento para estas empresas”, diz, referindo-se às PME. É que não compilando a informação e não a produzindo, não a conseguirão fornecer aos bancos sempre e quando necessário. Na prática, o resultado é, salienta, “um afunilar das opções, ou, pelo menos, das opções mais baratas, com uma taxa de juro mais simpática”.
O acordo da União Europeia surge no contexto das medidas de simplificação OMNIBUS I, propostas pela Comissão Europeia e tem como objetivo reduzir a complexidade administrativa dos relatórios de sustentabilidade e as obrigações ESG (sigla de Environmental, Social, and Governance, no original em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança) das empresas de menor dimensão.
“Foi o reconhecimento das dificuldades que, de facto, estava a haver sobretudo das pequenas e médias empresas, porque as empresas cotadas têm outros recursos”, justifica Maria Soares do Lago. O problema não era só de Portugal, obviamente.
“O que se pretende é um caminho que as empresas consigam fazer. Especificar mais, limitar mais e tentar com isto levar as empresas a conseguirem fazer o caminho para a transição”, adianta a advogada.
De acordo com as novas regras, só estão obrigadas a reportar os indicadores empresas com mais de 1000 trabalhadores e negócios superiores a 450 milhões de euros. Esta baliza atira para fora as pequenas e médias empresas portuguesas que empregam até 250 trabalhadores.
Com as alterações ao pacote legislativo, a Comissão Europeia prevê que se venham a reduzir em 80% o número de empresas abrangidas pelas medidas. Há um alívio no curto prazo, mas que poderá dificultar a vida das empresas no longo prazo se abrandarem o trabalho que estavam a fazer.
ESG e Crédito Verde vieram mesmo para ficar? – questionou no início da entrevista Ricardo Santos Ferreira, Subdiretor do Jornal Económico. Maria Soares do Lago foi categórica. Na sequência, explicou que o crédito verde tem duas vertentes: uma destinada a financiar projetos verdes e sustentáveis e outra ligada à maneira como a empresa está a implementar a estratégia de sustentabilidade. E sim, diz Maria Soares Lago, em Portugal, o mercado de capitais “está bastante enraizado”, “funciona muito bem” e “está toda a gente a trabalhar no sentido dele ser maior. Apesar disso, admite que o caminho faz-se “aos poucos” “com paciência” e “formação”.
A sócia da Morais Leitão também esclareceu que a realidade na Europa nada tem a ver com os retrocessos que se vivem nos Estados Unidos de Donald Trump.

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