No Fórum Banca 2026, organizado pelo Jornal Económico, que decorreu no Hotel Ritz no passado dia 10 de março, o propósito era debater o futuro do setor financeiro, mas as críticas do Ministro da Economia e da Coesão Territorial deixadas aos bancos dominou o debate. Manuel Castro Almeida apontou a “excessiva retração do sistema financeiro nas suas análises de crédito, mesmo quando o Estado está disponível para garantir 80% do valor do empréstimo através do Banco de Fomento”.
Este “puxão de orelhas” do Governo aos bancos acabou por levar a uma resposta dos banqueiros no painel “Banca: e depois do ano de ouro, como se cresce?”.
Os presidentes de seis dos maiores bancos – Paulo Macedo, CEO da CGD; Miguel Maya, CEO do BCP; Isabel Guerreiro, CEO do Santander; João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI; Sérgio Frade, CEO do Crédito Agrícola; e Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio – responderam ao Ministro da Economia, dizendo que “o problema está do lado da procura” por parte das empresas. Alertam que para haver mais procura de crédito por parte das empresas é preciso mais investimento e menos burocracia.
O presidente da Caixa Geral de Depósitos respondeu ao Ministro lembrando que o banco “tem aprovado e não contratado 45 mil milhões de euros para as empresas (que podem usar quando quiserem)” e defendeu que “para o crédito crescer é preciso que a economia cresça”.
“Há um conjunto de empresas que têm uma liquidez sem paralelo e há um conjunto de empresas que desalavancou”, disse Paulo Macedo para explicar porque é que as empresas têm um volume de depósitos superior ao crédito nos bancos.
O Ministro da Economia tinha destacado o que chamou de “marca negativa” da banca nacional. “O valor dos depósitos das empresas nos bancos é superior ao valor dos empréstimos dos bancos às empresas. É a primeira vez que tal acontece nos últimos 45 anos e é uma situação anómala que obriga a ponderação”, disse. Antes Castro Almeida tinha destacado a capitalização sólida dos bancos e o baixo nível de incumprimento do crédito. “A banca deixou de ser um problema” e passou a ser um ativo estratégico de Portugal, tal como também são as “contas públicas equilibradas”, o desemprego baixo e um ritmo de crescimento económico que “é superior à média europeia”.
Na resposta o CEO do banco do Estado disse que “o que eu vejo é uma concorrência enorme, não só com no crédito à habitação, como no crédito a empresas”, adiantando que “todos os bancos que estão aqui presentes têm perspectivas de aumento de produção do crédito”.
Também Miguel Maya, CEO do BCP, respondeu às críticas do Ministro dizendo que “a banca está muito bem capitalizada e com muita liquidez, mas tem de haver maior ambição de crescimento económico que tem de ser traduzido em políticas de apoio ao desenvolvimento empresarial”. O CEO do BCP lembrou ainda que o banco tem um rácio de transformação abaixo de 70% mas “onde eu gostaria de estar era nos 90% a 95%. O que dá dinheiro à conta de exploração do banco é conceder crédito. Portanto o incentivo é conceder crédito mesmo assumindo algum risco”. O banqueiro disse mesmo “se estamos a pensar que com uma garantia a 80% não há risco estamos a cometer um erro e a dar um mau conselho ao cliente. Se vamos emprestar a quem não tem capacidade de pagar estamos a adiar um problema para a empresa e a importar um problema para o banco”.
Miguel Maya ironizou no fim dizendo que “neste Fórum fomos acusados de ser muito prudentes no crédito a empresas e pouco prudentes no crédito à habitação com garantia do Estado”.
O mais assertivo na resposta foi, no entanto, João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, que, na resposta à intervenção do Ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, lembrou que “os bancos não emprestam o seu dinheiro. O dinheiro é dos depositantes”, sublinhando a importância da prudência no que diz respeito ao risco. “Nós temos uma grande responsabilidade, não só perante os nossos depositantes como também em relação à forma como estamos a fazer esses créditos com garantia, para garantir que os créditos sejam aprovados para boas empresas, com projetos, com planos”, defendeu o presidente do BPI.
João Pedro Oliveira e Costa, disse ainda que “o Banco de Fomento tem claramente ajudado [no crédito a empresas]”. No entanto acrescentou que “eu tenho a expectativa que nós todos tenhamos aprovado bem o dinheiro que o Estado está a dar de garantia às empresas. É que se não vamos pagar todos a grande operacionalidade do Banco de Fomento com juros e com tudo o que a gente não gosta”. O que levou depois Gonçalo Regalado, presidente do BPF, no encerramento, a explicar que “o risco de crédito é prioridade e o rating da nova produção é top-quality.
O CEO do BPI ressalvou que “a análise de risco é nossa”, quando questionado sobre quem avaliava o risco dos empréstimos dados com garantia pública operacionalizada pelo Banco de Fomento. Por outro lado, lembrou ao Governo o papel dos bancos no Covid, nomeadamente nas moratórias, e lembra que voltaram agora a ser chamadas para os concelhos afetados pelas tempestades. “Fico sempre um bocado preocupado quando se começa a apontar para uma área onde é fácil bater”, rematou o CEO do BPI.
Isabel Guerreiro realçou que, ao contrário dos outros banco, o rácio de transformação no Santander Totta é superior a 100%, ou seja dão mais crédito do que recebem de depósitos. Lembrou que existe vontade dos bancos em emprestar crédito às empresas e apoiar os seus projetos. “O tema é o incentivo há procura. Essa procura não acontece com a intensidade que todos gostaríamos que acontecesse. Algumas empresas não sentem essa necessidade”, sublinhou.
Já Sérgio Frade, CEO do Grupo CA disse que “por mais que os bancos tenham linhas de crédito aprovadas por mais que haja liquidez, se as próprias empresas, e se a economia não crescer não vale a pena ter mais liquidez, tem de haver maior taxa de crescimento económico”.
Por seu turno, Pedro Leitão, CEO do Banco Montepio refutou “completamente a questão dos bancos não estarem disponíveis para conceder crédito”.
Duelo entre ministro da Economia e banqueiros acende o debate
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Castro Almeida queixou-se da “excessiva prudência” no crédito a empresas, mesmo quando o Estado está a garantir 80%. Bancos responderam a uma só voz.