A distância entre Portugal e Itália é longa. São 2.500 km entre Lisboa e Roma por estrada, 25 horas de viagem. A tudo isto, há que juntar trânsito, mau tempo, a travessia de montanhas. Mais: também há custos com combustível a ter em conta, assim como as emissões poluentes.
Foi perante este cenário que foi criada a primeira autoestrada ferroviária internacional a ligar Portugal e Espanha, que depois segue para Itália via navio, atravessando o mar Mediterrâneo. A ideia é transportar por comboio a carga que seguiria habitualmente por camião, com os semirreboques a irem de comboio, mas sem o trator (a cabine). Depois, é só atrelar novamente e seguir viagem. Mais de 100 camiões estão a ser retirados da estradas todas as semanas; mais de 400 todos os meses; 5 mil por cada ano.
O objetivo é reduzir tempos de circulação, assim como cortar nos custos, incluindo com combustível. Ao mesmo tempo, são retirados camiões da estrada, logo menos poluição.
A primeira destas vias entre os dois países ibéricos, segue do Entroncamento para Valência, na costa mediterrânica, com ligação a Itália através de navio. Foi inaugurada no final de janeiro. O comboio conta com um total de 444 metros com uma carga de 1.300 toneladas. A viagem dura entre 20 a 24 horas.
“O potencial das autoestradas ferroviárias é enorme, já que permite o transporte de camiões (as galeras, sem o trator), contribuindo para uma redução dos tempos de circulação rodoviária e dos respetivos custos, seja com combustível, com manutenção ou outros encargos, e, igualmente relevante, permite reduzir as emissões de CO2.”, disse ao JE o presidente da Medway Carlos Vasconcelos.
A primeira destas vias em Portugal nasceu de uma parceria entre a Medway (antiga CP Carga, agora detida pelos suíços da MSC), a espanhola Tramesa e transalpina TransItalia.
Duas vezes por semana, em cada sentido, partem estes comboios. Do Entroncamento até à fronteira, o comboio entra na Linha do Leste em Abrantes, seguindo até Elvas até chegar a Badajoz.
Entre Valência e Itália, são usadas as autoestradas marítimas, com os camiões a entrar diretamente nos navios Ro-Ro (que servem precisamente para transportar camiões) da Trans Itália e da Grimaldi, com rotas para os portos transalpinos de Salerno, Civitavecchia, Livorno, Savona, Palermo e Catania.
“É a forma dos dois modos, ferrovia e rodovia, trabalharem em conjunto, retirando camiões da estrada e reduzindo o impacto ambiental da rodovia. Para as empresas de camionagem, para além da redução de custos, esta solução permite-lhes, também, concentrar os motoristas nos terminais (neste caso: Entroncamento e Madrid), evitando todo o percurso desde e até Valência. Creio que o futuro passa por estas autoestradas ferroviárias”, afirmou Carlos Vasconcelos.
Trata-se de um serviço semanal, sendo realizadas, neste momento, duas ligações em cada um dos sentidos, cada um com capacidade para 26 camiões.
O cliente da Medway é a Tramesa, que detém os vagões, com a Transitalia a ser a cliente da Tramesa, sendo quem detém os camiões.
Para a Infraestruturas de Portugal, a empresa pública que gere a rede, esta autoestrada permite “otimizar o transporte ferroviário de mercadorias, ao possibilitar o encaminhamento de semirreboques rodoviários em vagões ferroviários (rolling motorways). Entre os principais benefícios, destaca-se a redução das emissões de gases com efeito de estufa, o alívio do congestionamento rodoviário e o reforço da competitividade do transporte ferroviário no corredor ibérico”, afirmou no final de novembro de 2025 quando foram realizados os testes reais de circulação nesta via.
Em julho de 2023, a Infraestruturas de Portugal e a Tramesa anunciaram o protocolo com vista à criação da autoestrada agora inaugurada.
Numa fase posterior, a autoestrada seria ligada aos portos de Setúbal e Sines. Depois, seria avaliado o corredor Lisboa-Valongo e a ligação a Espanha, mas através da Linha da Beira Alta, que entra no país vizinho por Vilar Formoso.
OJE questionou a Infraestruturas de Portugal sobre estas ligações, mas não obteve resposta.
Portugal já conta com uma autoestrada ferroviária internacional
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Primeira autoestrada ferroviária internacional já liga Portugal e Espanha e chega a Itália por navio. Corta custos e reduz emissões, Por ano, são retirados 5 mil camiões das estradas.