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Está o sistema financeiro num momento como o que antecedeu a crise de 2008?

O CEO do JP Morgan, alerta para a euforia de um mercado em alta constante, a ultrapassar limites. “Vejo pessoas a fazerem muitos disparates”, diz.

amie Dimon, CEO do JP Morgan Chase, voltou a fazer soar o alarme para o sistema financeiro. No dia do investidor do maior banco norte-americano, o banqueiro disse ver nos mercados sinais que lembram 2006 e 2007: ativos caros, volumes elevados, alavancagem crescente e uma sensação difusa de que “desta vez é diferente”.
“Vejo pessoas a fazerem muitos disparates”, afirmou, acrescentando que o banco que lidera está “bastante cauteloso”.
O aviso surge num momento paradoxal para a banca. Em 2024, os grandes bancos norte-americanos beneficiaram de margens financeiras ainda robustas e de resultados sólidos, muito ajudados pela política monetária. O próprio J PMorgan apresentou lucros recorde, à boleia de banca de investimento e da evolução mercados.
Em bolsa, o setor acompanhou o ciclo: o índice S&P 500 Financials valorizou cerca de 12% em 2024, enquanto o KBW Nasdaq Bank Index recuperou do choque regional de 2023 e fechou o ano em terreno positivo.
Na Europa, o quadro foi semelhante. Após dois anos de forte expansão das margens com a subida das taxas, 2024 ficou marcado por resultados historicamente elevados em instituições como o Banco Santander, o BNP Paribas ou o Intesa Sanpaolo. Em Portugal foi um voltar de página da crise.
O índice EURO STOXX Banks acumulou ganhos de dois dígitos no ano, refletindo dividendos generosos e programas de recompra de ações.
No ano passado, o tom começou a mudar. A perspetiva de cortes de taxas pela Reserva Federal e pelo Banco Central Europeu colocou pressão nas margens futuras. Nos EUA, apesar de resultados ainda resilientes no primeiro semestre, o KBW Bank Index entrou em maior volatilidade. Na Europa, o EURO STOXX Banks corrigiu parte dos ganhos, com os investidores a anteciparem normalização de lucros e maior custo do risco. Mesmo assim, o setor esteve em alta.
É neste contexto que Dimon estabelece o paralelo histórico. “É o mesmo que se viu em 2006 e 2007, com a maré a fazer subir todos os barcos”, afirmou. Desta vez, a narrativa dominante pode não ser o imobiliário, mas a tecnologia e a inteligência artificial. A recente correção nas empresas produtoras de software ilustra isso: o índice de software do S&P 500 caiu 3,8% numa só sessão e acumula perdas superiores a 20% desde o início do ano.
CrowdStrike, Fortinet, Palo Alto Networks, Microsoft, Oracle, Salesforce, Cloudflare, Adobe e Datadog registaram quedas expressivas, algumas acima de 20% no acumulado do ano. “Estamos a ver uma onda de vendas impulsionada pelo pânico e guiada por narrativas”, disse Shrenik Kothari, da Robert W. Baird, citado pela Reuters. Jason Moser, da Motley Fool, falou em correções “indiscriminadas”.
Dimon não se fica pelos mercados acionistas. Em outubro de 2025, alertou para sinais no crédito após o colapso da Tricolor e da First Brands. “Quando se vê uma barata, provavelmente há mais”, afirmou ao The Guardian. O JP Morgan registou perdas de 170 milhões de dólares (cerca de 144 milhões de euros) pela exposição à Tricolor.
Estamos, então, num momento pré-crise? A diferença face a 2007 é que a banca está hoje mais capitalizada e sujeita a exigências regulatórias mais apertadas, além de que a aposta na inteligência artificial tem sido maioritariamente apoiada por cash-flow das grandes tecnológicas. Mas a complacência, combinada com ativos esticados e crédito a dar sinais de fragilidade, é precisamente o tipo de mistura que antecede correções mais profundas. Dimon não diz que a crise é inevitável. Diz apenas que o mercado se está a comportar como se fosse impossível. E é aí que começa o problema.

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