Entre autocracias, autocratas e candidatos a autocratas, o Mundial de futebol provou ao longo das décadas que, tal como as democracias, até se dá ao luxo de guardar um espaço para aqueles que acreditam que o mais apropriado seria que o vencedor fosse decidido por decreto. Entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, EUA, Canadá e México (três países cujas relações já conheceram melhores dias) organizam em conjunto o grande acontecimento desportivo do próximo ano com detalhes que fazem com que este Mundial seja único: é o primeiro a ser organizado por três países (com 16 cidades a receber as partidas), num modelo inédito de 48 seleções, quando o formato anterior albergava 32 equipas. Ou seja, estamos a poucos meses de assistir ao maior Mundial a que o planeta futebol já assistiu, e pela geografia onde se organiza, é uma espécie de “MakeWorld Cup Great Again”. Tal como em 2018 e 2022, a componente política volta a ter um tremendo significado num Mundial de futebol, talvez a dar razão à teoria de que a prova dá-se bem em terrenos autocráticos (ou pelo menos, que a bola não chora nos pés de líderes autoritários). Foi assim em 1934 com Benito Mussolini a deleitar-se com o triunfo caseiro da Itália (há quem defenda que o duce italiano foi o primeiro governante a perceber como poderia usar o futebol como extensão da política) e repetiu-se em 1978 em plena ditadura militar na Argentina com o mundo a assistir ao primeiro título mundial da alviceleste. Apesar das acusações de irregularidades nas votações, corrupção, desrespeito pelos direitos humanos e condições de trabalho indignas, a Rússia (em 2018) e o Qatar (em 2022) receberam mesmo os Mundiais (com uma troca de passes com Vladimir Putin à mistura) e muitos daqueles que analisam o percurso de Gianni Infantino na liderança da FIFA não têm dúvidas: uma das jogadas de mestre do presidente é o de contrariar as acusações de que estão a ser feitos acordos obscuros (um passado recente que a FIFA quer enterrar) da forma mais clara, ou seja, conduzindo os seus jogos de poder à vista de todos. E se a prova chega pela primeira vez a território português em 2030 (organização conjunta entre Portugal, Espanha e Marrocos), em 2034 será a vez da Arábia Saudita, numa manifestação de força e ambição ao abrigo do Visão 2030, o plano dos sauditas para diversificar a economia do país e melhorar a sua competitividade. A escolha do anfitrião foi vista pelos observadores como natural tendo em conta a recente proximidade de Infantino ao país, cujos laços ajudaram a colocar de pé o não menos controverso Mundial de Clubes. Estes analistas notam que, quando questionado sobre estas relações, a postura do presidente passa pela lógica de que a melhor defesa é o ataque, acusando os europeus de discriminarem estes regimes através de atitudes de cariz colonial. Para os críticos, há uma nova ordem que se impõe nesta FIFA de Infantino: gerar o máximo de receita possível (e o Mundial sozinho vale 80% das receitas da FIFA) através da expansão de vagas no Mundial de seleções e da reformulação total do novo Mundial de clubes, numa movimentação evidente no campo de atuação de uma UEFA assombrada pelo fantasma da Superliga Europeia.
Já se tentou de tudo para que o futebol ganhasse um espaço no coração dos norte-americanos: um Mundial de seleções em 1994, um Mundial de Clubes em 2024, a atração de investimento para a Major League Soccer, a contratação de Messi como figura de cartaz da liga. Nada resulta. Percebendo o ar do tempo, a FIFA agarrou-se a Donald Trump e o presidente dos EUA retribuiu o gesto ao ponto de sugerir que a mítica NFL (campeã de audiências no país) pudesse ceder o nome “football” ao desporto que verdadeiramente é jogado com os pés (que nos EUA se chama soccer). E é aqui que chegamos ao “bromance” do momento e que envolve Trump e Infantino. É verdade que o presidente da FIFA já tinha dado uns toques com Putin no Kremlin e que já tinha assistido a um combate de boxe ao lado de Mohammed bin Salman mas nada se aproxima da cumplicidade e proximidade com o inquilino da Casa Branca. Infantino é presença frequente em Mar-a-Lago, um resort de luxo em Palm Beach (propriedade de Trump) mas também na exclusiva Sala Oval (onde se deu a um presidente a honra de tocar no mais mítico troféu do futebol mundial, algo que só é permitido aos vencedores; a FIFA abriu um novo escritório e escolheu a Trump Tower em Nova Iorque (há quem assinale a peculiaridade de que a maior organização desportiva do mundo seja inquilina do presidente); é ainda de notar a presença do presidente da FIFA em cerimónias em que faz pouco sentido que a entidade se faça representar como a Cimeira pela Paz em Gaza (ao lado de chefes de Estado), que se realizou em outubro em Sharm El Sheikh, a convite do próprio Trump. Por fim, a presença do presidente norte-americano no sorteio do Mundial, que tinha tudo para ser um sorteio normal de uma competição não fosse a atribuição de um novo prémio: o Prémio da Paz da FIFA, criado para condecorar pessoas que tenham tomado “medidas excecionais e extraordinárias pela paz”. Falhado o Nobel da Paz tão ambicionado por Trump, a FIFA fez questão de o compensar e de lhe dar “uma das maiores honras” da sua vida, nas palavras do próprio. Antes que se conheça o vencedor do próximo Mundial da FIFA (lote em que Portugal é colocado), a entidade liderada por Infantino já garantiu a glória a esta nova modalidade: a Trumpball.
Mundial - Trumpball: o sonho americano de Infantino e da FIFA
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A FIFA já tentou tudo, mas não há forma de fazer com que o futebol entre no coração dos norte-americanos. Se não vai a bem, vai a mal: Infantino cobre Trump de elogios, prémios e distinções. Um jogo chamado “Trumpball”.