Onde estaremos daqui a 10 anos? A questão exige mais do que previsões económicas. Passa pelas escolhas sobre o modelo de desenvolvimento, produtividade das empresas, qualidade de vida da população e a capacidade para transformar investimento em resultados.
Ana Madsen, professora da Universidade Católica Portuguesa, manifestou o seu desejo de olhar para a economia portuguesa a crescer significativamente acima das principais economias europeias. “Não é o que vai acontecer, mas queria uma economia que crescesse a uma taxa de crescimento o dobro da dos outros, dos grandes da União Europeia. E, se nós crescêssemos o dobro dos outros, daqui a 40 ou 50 anos chegávamos lá”, afirmou.
Uma das palavras-chave para a economista é ‘retorno’, considerando que Portugal tem de avaliar de forma mais rigorosa os resultados dos investimentos públicos e privados. “Gosto muito da palavra retorno. É uma palavra a que, em Portugal, os nossos políticos e a nossa economia são alérgicos”, salientou, recordando a ideia atribuída ao Nobel da Economia de 2024, James A. Robinson, segundo a qual Portugal é “um país burro e pobre porque quer”, precisamente por investir sem avaliar posteriormente os resultados desses investimentos. “Lançamos o dinheiro nas coisas e depois não vamos ver os resultados”, realçou.
A mudança de modelo produtivo surge também como uma resposta ao problema identificado por Rafael Alves Rocha, diretor-geral da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), assumindo a dificuldade em prever como estarão as empresas portuguesas dentro de 10 anos.
“É difícil adivinhar o tipo de empresas que queremos ter em 2036. Se não é o pior exercício de todos, será um dos mais complicados”, afirmou, relembrando que a última década mostrou, como é difícil antecipar o contexto económico. Apesar da incerteza, os números atuais mostram a dimensão do desafio. O rendimento médio bruto em Portugal ronda os 1.700 euros, contra cerca de 3.300 euros na UE. Já a produtividade portuguesa corresponde a pouco mais de 68% da média europeia. “Temos uma produtividade por hora de 29 euros enquanto na UE é de 44 euros. Mas temos setores que têm uma produtividade por hora de 60 euros, outros de 50 euros e outros de 17,5 euros.
O tecido empresarial português é também marcado pela reduzida dimensão das empresas. Portugal tem cerca de meio milhão de empresas, 99% das quais são PME, e apenas cerca de mil grandes empresas.
Para Rafael Alves Rocha, existem cinco fatores fundamentais para criar empresas “mais sofisticadas, produtivas e que participem nas cadeias de valor”. O primeiro é a escala. “Em Portugal não temos escala, até porque a nossa noção de PME em Portugal é distinta daquilo que é a noção de PME noutros países”.
O segundo é o talento, salientando que Portugal consegue formar profissionais altamente qualificados, mas tem dificuldades em mantê-los. “Temos de reter talento. Em Portugal, formamos ao nível do melhor que se faz pelo mundo mas não o retemos”.
O terceiro fator é o investimento, dando conta de que o stock de capital por trabalhador em Portugal é “muito fraco”. “Temos de aumentar o investimento no fator capital por trabalhador para termos capacidade de competir”, salientou.
Por fim, surgem a inovação e a tecnologia, áreas em que, segundo o responsável da CIP, tanto Portugal como a Europa têm de acelerar. “A Europa está muito atrasada em relação aos EUA e à China. Portugal, por consequência, também está muito atrasado e tem de apostar mais em inovação e tecnologia”.
A discussão sobre o futuro de Portugal não se resume, contudo, ao crescimento económico. Para Fernando Araújo, médico e ex-secretário de Estado Adjunto e da Saúde, uma das principais métricas para avaliar o progresso de uma sociedade deve ser o número de anos que os cidadãos conseguem viver com qualidade.
“Cada vez mais, as sociedades não querem que vivamos mais tempo, mas querem que vivamos melhor”, afirmou, sublinhando que Portugal apresenta uma esperança média de vida de cerca de 82 anos, acima da média da UE e da OCDE.
Mais produtividade e saúde e empresas com maior escala
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Crescer acima da média europeia, aumentar a produtividade, apostar na indústria, reter talento e garantir mais anos de vida saudável são alguns dos desafios apontados pelos especialistas ouvidos na conferência do JE.