Portugal mudou nos últimos dez anos. A dívida pública diminuiu, as contas públicas melhoraram, a dependência energética recuou e o país reforçou a sua posição como destino seguro para investimento. Mas a evolução dos indicadores macroeconómicos não resolveu alguns dos problemas estruturais que continuam a limitar o crescimento.
Foi este o ponto de partida da análise apresentada pela EY-Parthenon na conferência dos 10 anos do Jornal Económico. Miguel Cardoso Pinto, EY-Parthenon Portugal Leader, considerou que Portugal conseguiu superar o “teste da resiliência” da última década, mas entra agora num novo ciclo em que terá de vencer o “teste da produtividade e da competitividade”.
A próxima década deverá passar, segundo Cardoso Pinto, pela capacidade de atrair investimento para atividades com maior intensidade tecnológica e de conhecimento. Inteligência artificial, cloud e data centres, energias renováveis e infraestruturas energéticas, reindustrialização sustentável, indústria transformadora avançada, ciências da vida, farmacêutica e biotecnologia, tecnologias de Defesa e serviços empresariais globais estão entre os setores.
O objetivo é aumentar o valor produzido pela economia portuguesa e reduzir a distância face aos concorrentes. Mas existem obstáculos. A EY-Parthenon identifica a disponibilidade de capital, a produtividade, a burocracia e o custo da energia como alguns dos principais estrangulamentos.
O fim do Plano de Recuperação e Resiliência deverá colocar maior pressão sobre o investimento público e privado. E, apesar da abundância de fontes renováveis, Portugal continua a enfrentar dificuldades em transformar essa vantagem num custo energético competitivo para algumas empresas, sobretudo as indústrias eletrointensivas.
É neste contexto que surge a pergunta: Portugal está melhor do que estava em 2016?
Para Rui Rio, a resposta é negativa. “O país está pior”, afirmou o antigo líder do PSD e ex-presidente da Câmara Municipal do Porto. Rio reconheceu que existem “uma série de números positivos”, mas considerou que estes não anulam problemas que se agravaram ou continuam sem resposta. Apontou o crescimento fraco da economia, a baixa produtividade, a escassez de capital e de poupança e a crise da habitação. Defendeu ainda reformas profundas na justiça, no sistema político e no Estado. “A justiça está hoje pior do que em 1973 e é vital que se reforme de um modo geral. Não vale a pena estarmos com panos quentes, é a maior falha do pós-25 de Abril”, afirmou.
Também a produtividade esteve no centro da sua intervenção. Rio considerou que a subida rápida do salário mínimo contribuiu para colocar o salário médio num patamar baixo, num contexto em que a economia não conseguiu aumentar suficientemente a produtividade.
Vítor Neves, presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), apresentou uma leitura diferente, embora partilhe algumas das críticas. “Apesar de existirem números que indicam que estamos melhor há dez anos, devíamos ter feito muito mais do que fizemos.”
Para o empresário, a questão da produtividade não pode ser medida apenas pela quantidade produzida. Portugal pode produzir tanto ou mais do que outros países em determinadas atividades, mas continua a captar uma parcela limitada do valor gerado. Na sua perspetiva, Portugal continua demasiado dependente de um modelo de subcontratação, enquanto Espanha conseguiu criar marcas e empresas globais. “Temos de passar a ser um país que tem os seus próprios produtos e que inova e que acrescenta valor”, defendeu.
É neste ponto que as diferentes leituras acabam por se aproximar. A EY-Parthenon identifica a produtividade e a competitividade como o grande teste da próxima década. Rui Rio entende que os progressos dos últimos dez anos não foram suficientes para dizer que o país está melhor. Vítor Neves reconhece que os indicadores mostram uma evolução positiva, mas considera que Portugal ficou aquém do que poderia ter alcançado.
A questão deixa, assim, de ser apenas comparar Portugal de 2016 com o de 2026. O desafio é perceber se o país consegue transformar a estabilidade financeira, a energia renovável, a segurança e a capacidade de atrair investimento em empresas mais competitivas, produtos próprios, maior valor acrescentado e salários mais elevados. É esse, para a EY-Parthenon, o próximo teste de Portugal.
Portugal está melhor? Rio diz que “não”, Neves vê avanços
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Uma década depois, o país chega a uma encruzilhada: há avanços nas contas públicas e na energia, mas persistem bloqueios na produtividade, investimento e na criação de valor.