A “epidemia de letargia” que se apoderou da transição energética em Portugal, nos últimos tempos, arrisca tornar o país estruturalmente dependente de Espanha, onde o investimento em renováveis tem sido feito com maior ambição e eficiência. O alerta é dado por João Galamba, antigo secretário de Estado da Energia (que desempenhou mais tarde funções como ministro das Infraestruturas no segundo Governo de António Costa), que pede ação e coordenação entre as várias entidades nacionais para evitar esta “tragédia”, sobretudo após anos em que o país liderou a aposta na energia verde na Europa.
“Cada minuto que perdemos em estudos, reflexões e estratégias, e com o outro lado da fronteira com várias iniciativas em várias áreas”, afirmou, na sua intervenção na conferência sobre transição Energética, promovida pelo Jornal Económico (JE), que se realizou na sede da Pérez-Llorca, em Lisboa, no final da semana passada. “O que não se faz deste lado da fronteira far-se-á do outro lado”, afirmou.
O exemplo mais óbvio será o da energia solar, onde Portugal se deixou ultrapassar pela economia espanhola, tornando-se mesmo “estruturalmente dependentes de importações de solar” provenientes de Espanha.
Galamba admite compreender a lógica económica por detrás desta tendência, dado que a energia oriunda do outro lado da fronteira é mais barata e “ajuda a encher as barragens” em território nacional, mas assevera que esta situação levou a uma dependência estrutural.
“E o meu medo é que esta dependência se consolide em todas as áreas”, avisa.
Além do solar, também o eólico é exemplificativo deste paradigma em que Portugal vai perdendo terreno para o país vizinho, sobretudo considerando que Espanha “integrou mais de 1 Gigawatt de eólicas” no ano passado, enquanto Portugal instalou 25 Megawatts – isto, “depois de termos sido durante anos líderes” neste segmento, diz.
A juntar a isto, “Espanha está a dar passos firmes na bombagem”, ao contrário de Portugal, estando também a preparar terreno em termos regulatórios para o mercado de baterias.
“Portanto, ou acordamos todos para a vida e damos passos firmes para transformar a letargia que subitamente se apoderou do nosso país, ou então, apesar de sermos, juntamente com a Espanha, o país mais competitivo em renováveis, seremos um país estruturalmente dependente de importações de Espanha em todos os atores energéticos e isso seria uma verdadeira tragédia nacional”, expôs, num modo de alerta. “Espero que isso não aconteça”, disse.
João Galamba abordou, também, o tema do licenciamento ambiental, transversal a todos os projetos, deixando críticas, especialmente, à atuação do ICNF. Mais uma diferença em relação a Espanha.
Para Portugal, o que está em causa é o aproveitamento de uma oportunidade, que se acentuou com o reforço das dimensões de competitividade, custo e segurança na transição energética, que tem vindo a relegar para segundo plano a dimensão climática e de sustentabilidade. Oque pode beneficiar Portugal no processo de eletrificação nos setores em que esta já é uma alternativa competitiva, como o transporte rodoviário, incluindo o pesado de mercadorias, e uma parte relevante da indústria.
O hidrogénio, diz, perdeu competitividade e deixará de ser uma alternativa viável.
João Galamba critica “letargia” que se apoderou da transição energética
/
Antigo secretário de Estado da Energia lembra as diferenças entre Portugal e Espanha no investimento e regulação para alertar para o risco de uma “dependência estrutural” do país vizinho.