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Falta preparação para um Portugal mais velh

O aumento da esperança média de vida é um sucesso, mas também um desafio social e económico, que não está a ser encarado. Estamos adormecidos.

A Europa adormeceu face ao tema do envelhecimento. O maior desafio é o risco da demografia. Em Portugal não é diferente, vive-se mais, mas não necessariamente melhor. O aumento da esperança média de vida, frequentemente celebrado como um dos maiores sucessos das últimas décadas, esconde um problema estrutural que não se conseguiu resolver: como garantir qualidade de vida numa sociedade cada vez mais envelhecida.
“Se nada for feito, Portugal poderá tornar-se, nas próximas décadas, o país mais envelhecido da Europa”, alerta Adalberto Campos Fernandes, especialista em saúde pública, ex-ministro da Saúde e, agora, coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde. Chama a atenção para o facto de Portugal figurar já entre os países mais envelhecidos do mundo, uma realidade que coloca pressão sobre o sistema de saúde, a segurança social e a própria estrutura económica.
Apesar da redução de doenças evitáveis e dos avanços médicos, uma parte significativa da população chega à velhice com doenças crónicas. A longevidade não é acompanhada por um aumento proporcional dos anos de vida saudável. Este fenómeno levanta uma questão central: estará o sistema preparado para lidar com uma população mais envelhecida, mas também mais dependente? A resposta não é totalmente positiva. O modelo atual continua centrado na resposta à doença, em vez da sua prevenção e na promoção de envelhecimento ativo.
O envelhecimento não é apenas um desafio social — é também económico. “A chamada “economia da longevidade” começa a ganhar espaço no debate europeu, mas continua pouco desenvolvida em Portugal”, considera.
O problema não é exclusivo de Portugal, mas assume contornos mais graves no sul da Europa. “Países como Itália, Espanha e Portugal enfrentam taxas de natalidade baixas e envelhecimento acelerado, ao contrário de alguns países do Norte, onde políticas mais robustas têm mitigado o impacto”, diz. “Falta uma estratégia comum e, sobretudo, decisões políticas que antecipem o problema em vez de reagirem a ele”, defende.
Adalberto Campos Fernandes considera que a imigração e a tecnologia são soluções incompletas para a questão da longevidade. No primeiro caso pode ajudar a equilibrar a pirâmide demográfica, mas não resolve o problema estrutural. No segundo, promete aliviar a pressão sobre os serviços, mas levanta novas questões sobre custos, acesso e desigualdades.
Assinala, ainda, outra questão: a desigualdade. “Metade do país enfrenta dificuldades no acesso a cuidados e condições de vida dignas, enquanto a outra metade vive uma realidade distinta. Esta clivagem tende a acentuar-se com o passar do tempo”, diz.
O desafio está em criar condições para que mais pessoas possam envelhecer com saúde, autonomia e participação social. É uma questão social, mas, em primeiro lugar, política. Que tem de ser assumida.

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