O BCP está nos holofotes do Governo desde que surgiu no mercado a possibilidade de o acionista chinês Fosun aproveitar a valorização das ações do banco liderado por Miguel Maya para realizar elevadas mais-valias.
Segundo apurou o Jornal Económico, existe um “acordo de cavalheiros” entre o BCP e o Governo para que, em caso de alteração acionista relevante, o banco mantenha o Estado informado. Desde logo, porque o Governo quer garantir que o maior banco privado português não vá parar às mãos de “acionistas indesejados”.
O que podem ser acionistas indesejados? Por exemplo, na ótica do Estado, seriam bancos espanhóis. Não é novidade para ninguém que o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, quer evitar que a banca espanhola — que representa atualmente cerca de um terço do mercado bancário português — aumente a sua quota em Portugal. A opinião do ministro, manifestada durante o processo de venda do Novobanco, não mudou.
Joaquim Miranda Sarmento considera que “seria bom para o mercado bancário português que a presença espanhola, contra a qual naturalmente nada temos, não aumentasse”.
Uma fonte explicou que o BCP está a tentar encontrar uma alternativa para evitar deparar-se com um acionista “indesejável” e que o Governo apoia essa estratégia. No entanto, ainda não existe nada de concreto porque, relativamente aos chineses, “nunca se sabe o que vão fazer amanhã”.
As mesmas fontes afirmam ainda que a Fosun pretende obter um prémio, independentemente do preço, e que ninguém estará disposto a pagar um prémio por uma posição minoritária depois de a ação do BCP ter subido tanto.
Os potenciais interessados numa participação de 20% no BCP seriam, em primeira linha, investidores institucionais. Mas isso exigiria um ABB (accelerated book building), o que implicaria um desconto que os chineses parecem não querer aceitar. Ainda assim, a pressão do endividamento poderá levá-los a mudar de posição.
Para já, sublinhe-se, não existe nenhuma iniciativa concreta por parte da Fosun para vender os 20,45% que detém no BCP. Não há assessores contratados nem contactos em curso, revela fonte próxima da Fosun.
No entanto, a verdade é que o conglomerado Fosun registou os 20,45% do BCP como participação financeira, ou seja, disponível para venda.
Um investidor tem sempre de ponderar entre dois cenários: aproveitar o cash flow dos dividendos anuais e manter a participação — sendo que o BCP anunciou que vai distribuir 90% dos resultados — ou cristalizar os ganhos do investimento, vendendo ações enquanto estas estão em alta. Nesta altura, o BCP está a um passo de atingir a cotação de um euro por ação (fechou nos 0,96 euros).
A sustentar a tese de que a Fosun poderá vender os 20% do BCP está o facto de o conglomerado chinês necessitar de liquidez para fazer face à pressão da dívida.
Miguel Maya, CEO do BCP, tem dito que “não está preocupado com o tema” e disse recentemente ao Negócios que “o banco tem uma saúde ótima e uma capacidade muito relevante de atrair investidores”.
Recorde-se que o grupo chinês entrou no capital do BCP em novembro de 2016, altura em que BCE deu “luz verde” à compra de 16,7% do capital do maior banco privado português. A operação concretizou-se através de um aumento de capital do BCP reservado à Fosun e foi assinado um memorando de entendimento onde ficou estabelecido que a Fosun poderia aumentar a participação no BCP. Este reforço exigiu ainda a alteração dos estatutos do banco, que limitavam os direitos de voto a 20%. A Fosun foi reforçando a sua posição até atingir 29,95%, já com o limite de voto nos 30%. Depois reduziu até os atuais 20,45%.
Governo apoia BCP na procura de acionistas estratégicos
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O risco de a Fosun vender a participação do BCP não deixa indiferente o Governo, que quer estar informado sobre futuros acionistas do maior banco privado. A Ageas não pode ter mais de 5%.