Há uma paisagem que vale milhões para quem a visita, mas que está a deixar de dar dinheiro a quem a mantém. No Douro, onde as encostas de vinha em socalcos fazem parte do património mundial da UNESCO desde 2001, há viticultores que trabalham um ano inteiro para chegar à vindima e descobrir que não têm comprador para as uvas. E há quem defenda que, perante uma crise que deixou de ser passageira, já não basta destilar excedentes ou pagar para que as uvas fiquem na vinha: é preciso reduzir a área plantada e dar mais valor à que permanece.
“Somos os jardineiros de uma paisagem que não nos paga”, desabafa Mário Joaquim Lima, viticultor. O Douro tornou-se num destino turístico, mas são os agricultores que asseguram, ano após ano, a manutenção das encostas. “O Douro, neste momento, mais do que produção de vinho, é um postal de turismo”, aponta.
“A crise não nasceu este ano”, afirma Carlos Alonso, CEO da Carlos Alonso Douro Wine Company, explicando que foram autorizadas plantações utilizando licenças provenientes de outras regiões, numa altura em que o comércio dos vinhos do Douro estava a crescer. A área de vinha aumentou - desde 2020 cresceu 25%, mas o mercado não acompanhou. Pelo contrário. Ao mesmo tempo que aumentava a produção de vinho do Douro, começaram a diminuir as vendas de vinho do Porto.
Hoje, a área de vinha do Douro ronda os 43 mil hectares e, segundo Alonso, não pode continuar a crescer. “As novas plantações estão sujeitas a regras que implicam arrancar vinha ou transferir direitos, mas o problema permanece: elevada oferta para pouca procura”. A dificuldade é clara: Parte dos viticultores chega à vindima sem comprador para as uvas.
Este ano, a resposta do Esta do foi disponibilizar 12 milhões de euros para apoiar quem não conseguiu colocar a produção no mercado. “É para deixarem a uva na vinha, mediante comprovação e validação pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP)”, diz.
No entanto, os viticultores dizem que a medida veio tarde e que muitos poderão não conseguir receber o apoio. Frederico Falcão, presidente da Viniportugal, diz que esta medida suscitou criticas no setor, nomeadamente quanto às regras de acesso e ao valor efetivamente pago por quilo. O responsável refere que a compensação inicialmente estimada rondaria os 50 cêntimos por quilo, mas que as regras entretanto definidas deverão reduzir esse valor. Falcão lembra ainda que outras regiões do país, caso do Alentejo e vinhos verdes também enfrentam dificuldades de escoamento da uva e que precisam de apoios do Governo. Para Alonso, esta medida é apenas uma resposta de emergência. “É um paliativo para adiar a morte do viticultor.”
Nos anos anteriores, quem não conseguia vender as uvas podia entregá-las em centros de vinificação para as transformar em vinho destinado à destilação, mas esta alternativa também levanta dificuldades, isto porque segundo Alonso, o custo de produção das uvas do Douro torna economicamente inviável fabricar aguardente vínica a preços competitivos. “O litro da aguardente ronda 1,50 euros. Se for produzida com uvas do Douro remuneradas a 400 euros por pipa, o preço poderia quadruplicar, mesmo sem assegurar lucro ao produtor.”
No Douro, produzir é muito mais caro do que no resto do país. A orografia torna a mecanização difícil, sobretudo nas vinhas em socalcos, e obriga a uma utilização muito maior de mão de obra. Que é escassa. Alonso calcula que uma vinha bem cultivada ultrapasse os 4.000 euros por ha. Na sua própria exploração, gasta cerca de 4.500 euros. Um valor corroborado por Lima.
“Quando vendo as uvas, realizo cerca de 3.500 euros por hectare”. A conta traduz-se num prejuízo de cerca de 1.000 euros por hectare. “É possível reduzir os custos”, admite, mas “isso tem um preço. Uma vinha pode ser mantida durante anos com menos cuidados, gastando 2.000 ou 3.000 euros por hectare, mas depois começa a definhar e será necessário investir na sua recuperação.”
A baixa produtividade agrava a situação. “Quando a produção é menor, os custos são os mesmos e, portanto, há uma impu tação por custo de quilo bastan te mais elevada.” Alonso não esconde a conclusão a que chegou:”Apesar de ser viticultor, sei que é necessário reduzir a área de vinha”. Uma opinião partilhada por Lima.
Miguel Pessanha, Administrador Executivo da Sogrape, afirma que este é um problema estrutural e que a solução passa por adequar a oferta à procura, logo, diz que a Sogrape também concorda em reduzir a área de vinha”. Contudo, afiança que este ano compraram todas as uvas aos seus 800 fornecedores.
Mas o arranque não teria de significar o desaparecimento da agricultura nem a destruição da paisagem. “Uma vinha menos rentável poderia dar lugar a outras culturas, caso do olival, desde que o terreno continuasse a ser cuidado”, defende Alonso. O verdadeiro problema é o abandono. Uma vinha abandonada transforma-se num terreno inculto e pode ficar sujeito a incêndios.
A proposta que defende passa por permitir ao viticultor arrancar as parcelas mais difíceis, afas tadas ou caras de trabalhar e transferir para a vinha que mantém o direito de produção de vinho do Porto associado à área arrancada. Por exemplo, um viticultor com cinco hectares teria atualmente direito a produzir cerca de 10 pipas de vinho do Porto, à razão de duas por hectare. Se comprasse direitos de produção a outro viticultor que pretendesse abandonar a atividade, poderia aumentar o seu benefício sem alterar a área de vinha. “A ideia é trocar quantidade por valor: menos hectares, menos custos e mais produção de vinho do Porto concentrada nas parcelas economicamente viáveis”, explica.
Há crise no Douro, mas o problema está a acontecer a nível mundial. Segundo Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, o consumo mundial de vinho está a cair e o Porto é uma das regiões afetadas. Carlos Alonso aponta também para uma mudança geracional nos hábitos de consumo de vinhos licorosos. Dá o exemplo do xerez em Espanha e no Reino Unido, onde o consumo esteve durante décadas associado às gerações mais velhas.
“O Porto ainda mantém uma parte importante do seu consumo graças às velhinhas francesas que todos os dias bebem um cálice ”, diz, diverido, Alonso, acrescentando que em França é também comum utilizarem vinho do Porto na culinária, em molhos. Porém, a verdade é que beber diariamente é que faz volume. “Um copo de vinho do Porto servido no Natal por muitas famílias portuguesas tem importância cultural, mas não chega para sustentar o mercado”, continua.
Há ainda outra dimensão da crise: a promoção internacional. O presidente da ViniPortugal, diz que o setor tem defendido junto do Ministério da Agricultura a necessidade de uma ação conjunta para promover os vinhos portugueses, incluindo o do Porto. Mas existe um obstáculo legal. A ViniPortugal é financiada por uma taxa de promoção paga pelos vinhos portugueses, incluindo os do Douro, mas o vinho do Porto não a paga. Por isso, a legislação que enquadra a promoção impede esta associação de incluir o Porto nas suas ações. “Nós estamos legalmente impedidos de o fazer”, afirma.
A situação torna-se paradoxal quando a ViniPortugal está presente em cerca de mais 15 mercados internacionais, com centenas de ações, e encontra compradores e jornalistas interessados no vinho do Porto, mas não pode levá-los para essas iniciativas.
O setor defende uma reformulação das taxas pagas pelos produtores de vinho do Porto, para que uma delas possa assumir a natureza de taxa de promoção e permitir a entrada no sistema de promoção nacional. Segundo Falcão, esta possibilidade já foi apresentada várias vezes ao Ministério da Agricultura, sem alteração legislativa até agora.
O Douro tem um problema económico, agrícola e social. Se a atividade deixar de ser rentável, os produtores profissionais abandonam. Se os produtores mais velhos não tiverem sucessores, as explorações podem desaparecer. Se as vinhas forem abandonadas, a paisagem transforma-se. E, se a população agrícola diminuir, uma região que já tem poucas alternativas económicas perde também capacidade para se manter viva. “Nós estamos aqui a sofrer profundamente para manter uma paisagem efetiva que outros lucram”, diz Alonso. O turismo beneficia das encostas, dos socalcos e da imagem do Douro. Mas, para quem cultiva a vinha, essa beleza não paga salários, tratamentos, fertilização, mobilização do solo ou vindimas.
É por isso que a discussão sobre o futuro da região não pode limitar-se a decidir entre destilar ou não destilar, vindimar ou não vindimar. Os apoios financeiros podem ajudar a atravessar uma campanha difícil, mas não resolvem o problema. O desafio é encontrar uma forma de manter viva a região sem obrigar os seus agricultores a perder dinheiro para conservar uma paisagem que pertence a todos.
Crise no Douro : Os jardineiros de uma paisagem que não lhes paga
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Os viticultores perdem dinheiro e diminui o consumo de vinho do Porto e Douro. O Governo desembolsa 12 milhões para deixar as uvas por vindimar. O cenário repete-se todos os anos. A solução é reduzir a vinha.