Skip to main content

Banca perde rentabilidade e afasta bancos pequenos do topo

A CGD é a grande vencedora do Ranking Alvarez & Marsal 2025. No extremo oposto, o Crédito Agrícola e o Banco Montepio apresentaram sinais de fragilidade. Rentabilidade do setor cai 14%.

O setor bancário português fechou 2025 ainda com indicadores sólidos, mas já sob sinais claros de inversão do ciclo favorável que marcou os últimos anos. Depois de um período impulsionado pela subida das taxas de juro, os principais bancos enfrentaram a primeira compressão relevante de margens desde o pico da Euribor em 2023, segundo o relatório anual Portuguese Banking Pulse, da Alvarez & Marsal.
A descida das taxas teve impacto direto na rentabilidade: o setor perdeu cerca de 14% neste indicador, com uma redução de aproximadamente 500 milhões de euros na margem financeira. Este novo contexto marca o fim de um ciclo de lucros recorde, ainda que os níveis de rentabilidade permaneçam globalmente positivos.
Apesar da pressão sobre as receitas, a banca conseguiu manter alguma resiliência. O crédito cresceu cerca de 8% entre os sete maiores bancos — Caixa Geral de Depósitos, Millennium BCP, Santander, Novobanco, BPI, Crédito Agrícola e Banco Montepio — evidenciando uma procura robusta por financiamento. Ao mesmo tempo, as comissões ganharam peso, passando a representar 23,6% do produto bancário, ajudando a mitigar parcialmente a quebra das receitas de juros.
Um dos traços mais marcantes de 2025 foi o aumento do fosso entre instituições. A Caixa Geral de Depósitos e o Novobanco destacaram-se num contexto mais exigente, com desempenhos sólidos em termos de lucro e eficiência. No extremo oposto, o Crédito Agrícola e o Banco Montepio apresentaram sinais de fragilidade, com rácios de eficiência acima dos níveis considerados sustentáveis.
A rentabilidade dos capitais próprios (ROE) do setor caiu de 15,3% para 14,3%, refletindo a compressão das margens, embora continue acima do custo do capital. O Santander e o Novobanco lideraram neste indicador, enquanto o Crédito Agrícola e o Montepio ficaram na cauda, evidenciando desafios estruturais.
Também ao nível da eficiência se verificou deterioração. O rácio cost-to-income subiu para perto de 40%, pressionado pela queda das receitas mais do que pelo aumento dos custos. Ainda assim, alguns bancos mantiveram níveis de excelência, com destaque para a Caixa Geral de Depósitos e o Santander. Já Crédito Agrícola e Montepio ultrapassaram claramente os limites considerados aceitáveis, reforçando a necessidade de mudanças estratégicas.
Em contraste com a pressão na rentabilidade, a qualidade dos ativos atingiu máximos de uma década. O crédito malparado desceu para 1,5%, enquanto a cobertura por imparidades aumentou, refletindo um sistema financeiro mais robusto e prudente. O custo do risco manteve-se praticamente nulo, confirmando um ciclo de crédito ainda benigno.
Ao nível de capital e liquidez, o setor continua confortável. Os rácios permanecem bem acima dos mínimos regulatórios, garantindo capacidade para enfrentar eventuais choques económicos. O crescimento dos ativos, que atingiram cerca de 365 mil milhões de euros, foi sustentado sobretudo pela expansão do crédito.
O sistema bancário português mantém-se altamente concentrado, com a Caixa Geral de Depósitos a representar cerca de um terço dos ativos totais. Ainda assim, coexistem modelos de negócio distintos, desde estruturas mais eficientes e digitalizadas até redes de proximidade mais densas, como no caso do Crédito Agrícola.
Para 2026, o cenário aponta para a continuação da pressão sobre as margens, ainda que parcialmente compensada por uma possível recuperação da Euribor. A evolução será também influenciada por fatores externos, como o contexto geopolítico e a política monetária do Banco Central Europeu.
A transformação tecnológica surge como um dos principais desafios estratégicos. A inteligência artificial deverá desempenhar um papel central na melhoria da eficiência, na gestão de risco e na criação de novas fontes de receita. Ao mesmo tempo, os riscos geopolíticos, incluindo o impacto de conflitos internacionais, ganham relevância crescente na gestão do setor.
Depois de ultrapassar a crise financeira e beneficiar de um ciclo favorável de taxas elevadas, a banca portuguesa enfrenta agora um novo teste: adaptar-se a um ambiente de normalização monetária, maior concorrência e transformação tecnológica acelerada.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico