A Arábia Saudita inundou o mercado de petróleo em 2014 com o objetivo de afundar os preços. Mesmo perdendo receitas fiscais, o Reino tinha uma meta clara: levar à falência os produtores de petróleo de xisto dos EUA, os novos cowboys à procura de fortuna no velho Oeste americano. Os sauditas viam o seu domínio do mercado mundial ameaçado e tentavam travar a ofensiva dos EUA, que era ao mesmo tempo um dos seus maiores clientes, e protetor militar. Os EUA tornaram-se no maior produtor mundial de petróleo e gás desde então.
Num mundo dominado pelo petrodólar, a guerra no Médio Oriente vai ser decisiva para a ascensão do petroyuan, isto é, contratos de petróleo negociados na moeda chinesa e não na americana.
O Irão tem deixado passar petroleiros no estreito de Ormuz, cujo pagamento tenha sido feito em yuans. A China é o maior cliente do petróleo iraniano e é um parceiro de longo prazo do regime de Teerão.
“O conflito pode ser um catalisador para a erosão no domínio do petrodólar o e o arranque do petroyuan”, segundo o Deutsche Bank, citado pela “Bloomberg”. O conflito arrisca a provocar mais “efeitos significativos” no uso global do dólar no comércio mundial e poupanças, assim como no seu papel como principal moeda de reserva mundial. A China tem vindo a desenvolver esforços para acelerar o crescimento global do yuan, desafiando o domínio do dólar no comércio global e finança.
Mas onde começa a história do petrodólar? É preciso recuar até 1974, quando a Arábia Saudita concordou em vender petróleo em dólares americanos e investir os excedentes em ativos de dólares, isto é, armamento, tecnologia, ações e obrigações, tudo “Made in USA”.
Mas tudo mudou no mundo desde há 50 anos. A Arábia Saudita vende agora quatro vezes mais petróleo à China do que aos EUA, que se tornaram entretanto o maior produtor mundial.
Os fundos soberanos dos países do Concelho de Cooperação do Golfo (CCG) têm investidos mais de seis biliões de dólares em ações, obrigações e outros investimentos a nível global, mas como uma forte concentração nos EUA. Fundos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes estão entre os 20 maiores detentores de dívida norte-americana. Parece muito dinheiro para tão pouca proteção, com o Irão a atacar sistematicamente vários países.
O sistema do petrodólar está assente em três pilares: a necessidade americana por petróleo, os contratos de petróleo em dólares, e a necessidade de Washington garantir segurança aos países do Golfo Pérsico.
Primeiro, a América tornou-se num exportador de petróleo e gás, não precisando necessariamente do Médio Oriente, apesar de manter as compras. Depois, os contratos de petróleo em dólares já estavam sob pressão, com países como a China, Rússia e Irão a fazerem negócios nas suas próprias moedas. Em terceiro, a guerra atual no Médio Oriente deitou por terra a teoria de que Washington vai proteger os países daquela zona a todo o custo, com o Irão a realizar vários ataques aos seus vizinhos.
Adeus petrodólar, olá petroyuan
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É da Ásia que sopram as novas oportunidades para os países do Golfo Pérsico. Os EUA já não conseguem proteger os seus aliados na região. Como maiores produtores mundiais, são agora seus concorrentes.