O leitor sorri e pensa que este modelo é uma caricatura, que não existem empresas com esta atitude. Mas a falência das que pararam acreditando na perenidade futura do seu modelo clássico vemos que não é assim tão raro – e é o caso da Eastman Kodak e da Polaroid por exemplo.
É aqui que empresas familiares se veem presas no que chamamos “a armadilha da tradição” – uma mentalidade em que preservar o passado se torna mais importante do que apostar em construir e garantir o futuro. Uma armadilha que se manifesta de várias formas ...
• na relutância em adotar novas tecnologias porque os sistemas antigos “ainda funcionam bem”
• na resistência a novas oportunidades de mercado porque colidem com o legado original da família ... e muitos não acreditam sequer que funcionem
• em processos de tomada de decisão excessivamente cautelosos, onde a aversão ao risco sufoca as ideias de inovação e desenvolvimento
Não é de admirar que em pouco tempo esta devoção à tradição se transforme numa barreira ao crescimento cada vez mais forte. Um estudo da Russel Reynolds mostra que a maioria líderes de empresas familiares consideram que as suas organizações não estão à frente da concorrência em inovação e que as suas equipas não estão preparadas para lidar com a mudança tecnológica nas suas organizações.
Hoje em dia a inovação não é uma opção – é a essência de um negócio moderno. A proliferação de tecnologias como a IA está a transformar de forma profunda a forma como as empresas criam valor, servem os clientes e concorrem entre si. E as empresas familiares mais bem-sucedidas percebem o que aí vem e abraçam a mudança, mantendo-se fiéis aos valores e à cultura que as levaram onde estão. Compreendem que não se trata de escolher entre a tradição e transformação, mas sim de perceber como honrar o passado enquanto se garante o futuro, de saber que raízes acarinhar e preservar e que novos ramos se devem estimular que nasçam e deem fruto.
O equilíbrio delicado entre tradição e inovação começa com uma liderança capaz de honrar a herança da sua empresa e impulsionar as mudanças necessárias. Líderes que compreendem que estes objetivos não são forças opostas — são estratégias complementares que, quando integradas com mestria, vão potenciar o desempenho e garantir um futuro de crescimento e valorização da empresa.
Existem empresas familiares que enfrentam este desafio porque se concentram exclusivamente na preservação dos estilos de liderança tradicionais da família nas suas várias gerações.
Procuram líderes que sejam cópias fiéis das abordagens dos fundadores, em vez de procurarem aqueles que possam trazer novas perspetivas sobre como expressar a sua abordagem no ambiente empresarial atual, que é muito diferente. E que alavanquem nas possibilidades abertas pela IA para serem “servant leaders” (Robert Greenleaf) onde deixam de estar isolados na avaliação de oportunidades e tomadas de decisão e passam a ser humildes instrumentos galvanizadores para uma organização participativa, motivada e eticamente responsável.
Conservar o estilo de liderança tradicional até é um instinto compreensível, afinal, a visão e o estilo de liderança do fundador construíram algo extraordinário. Porquê mudar o que funciona? Simplesmente porque o novo contexto exige essa mudança mesmo sabendo que a evolução do estilo de liderança exige um esforço de evolução ao líder que, no limite, ele pode não conseguir e ter de ser substituído.
As melhores empresas familiares não foram construídas evitando a mudança, mas respondendo a ela com sabedoria. Os seus fundadores enfrentaram provavelmente os seus próprios momentos de transformação, tomando decisões ousadas sem pôr em causa os seus valores essenciais. O desafio de hoje é encontrar e nutrir líderes que possam fazer o mesmo: honrar o passado enquanto constroem o futuro.
Recordando Heráclito, as empresas familiares que evitam a mudança não só correm o risco de se tornarem obsoletas, mas de ferirem o próprio legado que tentam preservar. O futuro será daquelas que conseguirem dinamizar o seu legado respeitando o passado e construir com coragem o futuro.
A armadilha da tradição
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Não é raro ver empresas familiares onde a preservação do passado se sobrepõe à aposta na inovação. É verdade que essas famílias empresariais construíram algo notável: um legado de cultura, valores e responsabilidade social que se estendeu por gerações. Por isso, quando o mercado exige mudança, a ideia de transformar o que foi cuidadosamente construído ao longo de décadas coloca muitas vezes profundos desafios.