As memórias são aquilo que fazem de nós quem somos. Zeina Abirached nasceu numa cidade dividida por uma linha, onde cresciam ervas, lado a lado com minas prontas a explodir. Lembra-se do desespero que era fazer uma chamada. Longas horas de angústia até ouvir o som que indicava “haver linha”. Lembra-se que, para tomar duche, era preciso ir à fonte buscar água. Lembra-se de ter passado a noite na escola – uma escola jesuíta – por ser demasiado perigoso ir para casa. Os bombardeamentos sucediam-se enquanto as crianças, assustadas, comiam bombons dentro do saco-cama. Os doces não param a guerra, mas sossegam o medo. Lembra-se que todos ficavam calados quando ouviam o noticiário na rádio. Já no liceu, recorda-se de os livros de história pararem no tempo. No dia 13 de abril de 1975. Oprimeiro dia da guerra civil no Líbano. “Ainda hoje é assim”, diz. A seguir, recorda, só havia uma página em branco.
A guerra civil terminou também num dia 13. Em outubro de 1990. Como se determina quando começa e termina uma guerra? Zeina Abirached não tem resposta. O sorriso é sereno. As cicatrizes, a existirem, começaram a encher páginas em branco. Com palavras e desenhos. “Foi uma urgência”, explica ao Jornal Económico numa conversa à margem do Amadora BD, que homenageou a autora na edição de 2025. “Uma urgência em descobrir a alquimia entre a escrita e o desenho” para melhor compreender o mundo.
Tinha 23 anos quando deixou Beirute, onde nasceu. Partiu para Paris em agosto de 2004, com uma mala que pesava 23 kg. Viu nessa coincidência um bom presságio. Ela que, em casa, sempre vivera entre duas línguas – árabe e francês – e duas culturas. Fosse pelas referências literárias, e também da banda desenhada (BD) franco-belga, fosse pela inusitada criação do seu avô, que construiu um piano que se desdobrava em sonoridades orientais e ocidentais.
Quem somos quando tudo o que conhecíamos se desfaz?
Somos memórias resgatadas, somos um país que Zeina define como “uma fénix”. Renascer é o mantra dos libaneses. “No país e na diáspora.” Não há amargura nas palavras. Tudo é otimismo. A Academia Libanesa de Belas Artes deu-lhe as bases, as arestas limou-as na École Supérieure des Arts Décoratifs, na capital francesa. Desde que publicou a sua primeira novela gráfica, “Beyrouth catharsis”, em 2006, não mais parou. “38, rue Youssef Semaani” (2006), “A Dança das Andorinhas” (em português pela Levoir, 2016), “Le Piano Oriental” (2015), entre outras obras, para entrarmos presente adentro na companhia do seu mais recente trabalho, numa altura em que já é considerada uma das autoras mais inovadoras da BD francófona, com obras traduzidas e premiadas internacionalmente.
Falamos na obra “O Profeta”, lançada em 2023, aquando do centésimo aniversário da publicação original, em Nova Iorque, da obra mais marcante do escritor e poeta libanês Khalil Gibran. Sim, Gibran também conheceu o exílio. A versão de Zeina Abirached é a primeira adaptação gráfica desta obra maior e património literário mundial do também libanês Khalil Gibran. Com sensibilidade, beleza e rigor, dizemos nós, e também “liberdade”, afirma a autora. Como a história se passa numa cidade imaginária, ela pôde criar a ‘sua’ Orphalèse. Assim como os seus habitantes e, desafio bem maior, “dar um rosto” ao Profeta. Protagonista de uma história, ode poética, que viajou mundo fora, traduzido em mais de 40 línguas, e é uma das obras mais lidas do séc. XX.
Este clássico de Gibran fala-nos do amor, da amizade, do trabalho, da beleza, da morte, da dor, da liberdade... Da condição humana, portanto. E que Zeina transpõe para um preto e branco harmonioso, “onde não cabem cinzentos”, diz, mais para criar “empatia” do que para acentuar a carga dramática do que é partir ou tentar regressar à memória, à identidade, à ligação com a terra ancestral.
A brutalidade da guerra não é aqui plasmada. A tradução gráfica busca, ao invés, um contraponto à seriedade das perguntas de Gibran. À beleza da filosofia de um homem que não era religioso, mas foi beber às religiões monoteístas e ao sufismo. E que procura a universalidade. Zeina sublinha, mais do que uma vez, que “este texto não envelhece por isso mesmo”. Tal como não deixa ninguém indiferente. Porque acredita na esperança e não na fuga.
Tal como o texto de Gibran, também a adaptação de Zeina Abirached propõe um espaço de contemplação, um interlúdio no ruído que nos rodeia. E vários silêncios – sim, numa BD também há silêncios – para conseguirmos pensar. Sobre o que nos une, o que nos define, o que nos dá ânimo nos tempos turbulentos em que vivemos. A encontrarmos um caminho. A resistir. Afinal, quem somos quando tudo o conhecíamos se desfaz?
Um clássico da literatura que não envelhece
/
“O Profeta”, de Khalil Gibran, obra universal sobre amor, amizade, dor, morte, liberdade… temas centrais à condição humana, encontra na sua primeira versão gráfica o traço íntimo de Zeina Abirached. Conversa com a autora libanesa na sua passagem por Lisboa.