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Portugal entre maiores produtores de metal crucial para a guerra

O preço do volfrâmio disparou e vai beneficiar a única mina nacional. Minério é crucial para produzir armamento. Mercado global é controlado pela China. Portugal foi fornecedor crucial na Segunda Guerra.

Omundo mergulhado numa guerra sangrenta sem fim à vista. Portugal assumia-se como neutro, mas as riquezas do subsolo eram cobiçadas por aliados e nazis. No xadrez político, Salazar vendia volfrâmio a Churchill, mas também a Hitler. No interior do país surgiu a febre do ‘ouro negro’ quando os preços dispararam e os volframistas ganharam fortunas, ficando para a história popular os episódios em que acendiam charutos com notas de contos de réis.
Mas para que serve o volfrâmio? Para produzir munições, mas também para construir tanques ou navios de guerra, para os tornar mais resistentes a bombardeamentos. Em tempo de guerra, os preços disparam, com o aumento da procura. Tem sido assim desde há mais de 100 anos. Mas há outros usos, como na produção de chips cruciais para a a indústria eletrónica, mas também para a nova vaga de Inteligência Artificial (IA).
Os preços do volfrâmio, ou tungsténio, dispararam mais de 550% para 2.250 dólares por tonelada métrica desde fevereiro de 2025, depois da China ter colocado certos produtos nas lista de restrições de exportação.
Mas desde que a guerra arrancou no Médio Oriente que o preço mais do que dobrou nas últimas semanas, perante o foco renovado nos gastos militares.
“Há pouca oferta e muita procura. Estamos com a produção habitual. Temos a produção toda vendida. Mas isso sempre tivemos. Temos tudo fechado, tudo vendido. Na verdade, mais tivéssemos, mais vendíamos, porque a procura é imensa”, disse ao Jornal Económico António Corrêa de Sá, administrador executivo da empresa responsável pela exploração nas Minas da Panasqueira, no distrito de Castelo Branco. Os clientes têm-se mantido estáveis nos últimos cinco anos, salienta.
Portugal foi o 11º maior produtor mundial de volfrâmio em 2025, com 700 toneladas, mais 50 toneladas face a 2024. A China é de longe o maior produtor global, pesando quase 80%.
O Império do Meio detém também as maiores reservas: 2,5 milhões de toneladas, mais de 53% do total a nível mundial. Já Portugal tem reservas de 3.400 toneladas, contando com as oitavas maiores reservas no mundo.
Do complexo da empresa Beralt Tin and Wolfram, detida desde 2016 pelos canadianos da Almonty, sai o único volfrâmio produzido atualmente em Portugal.
Ao longo de quase 130 anos de história, a mina tem vivido altos e baixos, com a mudança de mãos a ter lugar várias vezes.Os momentos de expansão tiveram lugar quando os preços estão em alta, o que ocorreu em momentos de grandes conflitos a nível mundial, como na Primeira e na Segunda Guerra, e na Guerra da Coreia na década de 50.
Deste complexo, sai o concentrado de volfrâmio, com 75%, acima da média do mercado, já “pronto a ser utilizado”.
A produção segue toda para exportação, com metade a seguir para a Europa e a outra metade para a Ásia, para empresas japonesas que operam nos EUA.
Apesar de já ter os contratos fechados, os preços vão sendo atualizados mensalmente com a média de mercado do mês anterior, refletindo, neste caso, as subidas recentes.
A companhia está atualmente a trabalhar para “aumentar a produção”, esperando que no espaço de dois anos consiga produzir mais, com a abertura de “novas galerias”. Isto fará a produção subir de 700 toneladas para 1.200 toneladas. As reservas atuais apontam para mais 15 anos de exploração.
A companhia vendeu 20 milhões de euros em 2025 e espera aumentar a faturação este ano com a subida dos preços.
“Esta é uma mina que trabalha há mais de 120 anos para abastecer o mundo. É importante porque não há ninguém que produza um concentrado tão puro como o nosso. As minas produzem normalmente com 65% e o nosso, excecionalmente limpo, tem 75%. Vale mais”, destacou António Corrêa de Sá.
“São boas notícias para Portugal e para os trabalhadores que também podem ter aumentos mais substanciais”, afirmou.
O responsável aponta que a produção segue toda para fora, mas que há “contactos fortes” para uma parte ficar em Portugal no futuro próximo, pois o contrato de concessão prevê que seja dada preferência às empresas nacionais. Neste caso, deverá servir para a produção de ferramentas de corte e de perfuração.
No caso dos navios, são produzidos hoje em dia com placas de volfrâmio para terem maior resistência.
“Este aumento de preços e de procura, infelizmente, não é por boa razão”, considera o responsável, apontando para o aumento do investimento em armamento.
Olhando para o futuro, o mercado deverá continuar bem apertado nos próximos tempos. “Com os inventários em baixo, as restrições chinesas às exportações e nova oferta limitada no futuro próximo, esta volatilidade deverá persistir durante 2026”, segundo uma análise feita pela Fastmarkets.
Novas minas na Europa, EUAe Ásia estão a anos de entrar nas cadeias de abastecimento. E substituir o metal permanece “quase impossível para a maioria dos usos industriais e a reciclagem não consegue escalar no curto prazo”. Ovolfrâmio continua a comportar-se como um “recurso estratégico em vez de um metal industrial convencional, com o preço a ser influenciado cada vez mais pelas decisões políticas, stocks estratégicos e alinhamento geopolítico”, aponta a Fastmarkets.
Durante a “amorfa neutralidade” portuguesa, como escreveu Aquilino Ribeiro, entre 1940 e 1944, apesar das dificuldades sentidas pela economia nacional devido ao conflito mundial, o PIB português conseguiu crescer entre 19% e 30% devido às vendas de volfrâmio aos aliados e nazis, permitindo mesmo atingir um excedente comercial histórico em 1942, recorda a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). O país viveu então dificuldades na compra de combustíveis ao exterior e teve o transporte marítimo “largamente interrompido, afetando todas as cadeias de abastecimento”. A escassez de bens “afetou as condições de vida no país e, para tentar amortecer o seu efeito, as autoridades lançaram uma política de racionamentos”, segundo a FFMS.
Já o historiador João Paulo Avelãs Nunes sublinhou que as três corridas ao volfrâmio no século XX“foram situações pontuais de acumulação de riqueza à escala local/regional e nacional, reforço das implicações político-diplomáticas e militares daquele “metal estratégico””, escreveu no “Público”.
Mas os tempos mudaram na terra prometida. “Para muitos dos que sonharam com a terra da promissão, a legislação de 1942 foi fatal. Na ânsia de maiorfortuna, os mais bem sucedidos no negócio investiam em minério todo o lucro que obtinham e guardavam-no à espera de que os preços subissem”, escreveu a historiadora Dulce Freire.
Sobre este período, António Corrêa de Sá recorda a febre do ‘ouro negro’ durante a segunda guerra mundial nas Beiras. “O volfrâmio atingiu então valores completamente malucos e fizeram-se grandes fortunas. Há histórias de pessoas que acendiam cigarros com notas de conto de réis”, afirmou, referindo-se aos volframistas.

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