É um dos frutos mais exportados por Portugal, chegando hoje a mais de 20 países, mas a sua produção vem sendo afetada pela doença do fogo bacteriano nos últimos três ou quatro anos.
A última colheita da pera rocha, que tem certificação europeia DOP (Denominação de Origem Protegida) desde 2003, foi de certa de metade da registada em 2021. Em 2025, 1 associados da Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha (ANP) registaram 115.990 toneladas, números semelhantes aos de 2024, ano em que a pera rocha registou a segunda pior colheita da última década.
O fogo bacteriano causou, entre 2021 e 2024, prejuízos de 45 milhões de euros aos produtores, de acordo com o Centro Operativo Tecnológico Hortofrutícola Nacional. A esta doença juntam-se as condições climatéricas desfavoráveis à produção do fruto, cultivado na região do Oeste e que está altamente dependente do clima.
Filipe Ribeito, presidente da Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha (ANP), diz ao Jornal Económico (JE) que o fogo bacteriano, “nos últimos anos, tomou proporções muito grandes”, afetando “o potencial produtivo” da área de pomares. A própria área tem-se reduzido por força da necessidade de se cortar e arrancar alguns pomares. No final do ano passado, o Governo ordenou, no âmbito do combate ao fogo bacteriano, a destruição, por queima ou enterramento, dos pomares com mais de 50% das plantas com sintomas visíveis da doença. O fogo bacteriano infetou quase 50% da área de pomares entre 2021 e 2024.
No ciclo biológico da pereira, o período da floração, que acontece normalmente em abril, é “um dos principais períodos de infeção”, sublinha Filipe Ribeiro.
E o que mudou para que a doença atingisse estas proporções? “No passado, o que acontecia é que tínhamos invernos mais severos, e no inverno a doença acabava por estar de alguma forma atenuada. Não nos podemos esquecer que a pereira é uma árvore de folha caduca. No inverno há a queda da folha. No entanto, quando temos um inverno mais ameno, a bactéria vai progredindo naturalmente”, explica o presidente da ANP, que ressalva que a bactéria “não afeta as pessoas”, mas apenas “as partes vegetais” destas árvores.
Do lado da LusoPêra, Mónica Gonçalves antevê “menos potencial produtivo “este ano, considerando o grande número de árvores arrancadas para eliminar o fogo bacteriano. Na ordem dos milhares.
Segundo a técnica de campo da LusoPêra, entre 20 e 30% dos pomares dos 13 produtores que constituem a empresa terão sido arrancados este inverno, quando é feita a poda e a limpeza relacionada com o fogo bacteriano. Em número de árvores, só num dos associados o pomar terá perdido sete mil pereiras.
Quanto à produção em 2026, Mónica Gonçalves, responsável por dar apoio aos produtores no campo, explica que será necessário esperar pelo início de abril, pela fase da floração, portanto, para “verificar se o ataque vai ser idêntico ou não ao ano passado”. “Em relação à área afetada do ano passado, vai ter repercussões, obviamente, nesta campanha”, afirmou a técnica da LusoPêra, cuja área de pomares se estende de Mafra até Alfeizerão, passando pelo Bombarral, Caldas da Rainha, além de Santarém.
Plantas mais resistentes
E que meios existem para combater a doença, que se tem traduzido num problema económico para o setor?
“Estamos a trabalhar em várias frentes para minimizar o crescimento e o impacto dessa bactéria na cultura: uma mais a longo prazo e outra a médio prazo”, explica ao JE o presidente da Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha.
A primeira diz respeito ao melhoramento genético, de forma “a ter plantas mais resistentes” ao fogo bacteriano, e a segunda a “soluções de defensivos agrícolas que permitam ter algum equilíbrio, desde soluções antagonistas até soluções de fagos, que são vírus que infetam essas bactérias”, continua Filipe Ribeiro.
“Temos de ter soluções biológicas, biodinâmicas e químicas. Portanto, não sermos demasiado conservadores em relação a isso”. “Acho que, nos últimos anos, na Europa tomam-se muitas decisões ideológicas sem fundamento científico. É grave e leva-nos para situações em que nós não conseguimos ter ferramentas”, denuncia.
Questionado sobre a eventual penalização do setor pela carga regulatória da UE, a resposta é inequívoca: “afeta porque acaba por afunilar as soluções que nós temos”. “Com a Europa a continuar a tomar decisões como toma, privilegiar a ideologia em vez da Ciência, daqui a uns anos seremos um museu. Do ponto de vista genético criou-se tanta regulação que, por exemplo, não podemos fazer uma coisa tão simples como conhecer o genoma de uma determinada célula de uma planta, e utilizarmos esse recurso para melhorarmos uma determinada espécie vegetal”, justificou. “Neste momento, se não houver uma alteração de fundo, e tem a ver com essa tal resistência natural das plantas, a resistência genética, vai ser muito difícil travar esta doença com as ferramentas que temos”.
De acordo com o Centro Operativo Tecnológico Hortofrutícola Nacional, que organizou em fevereiro a 1.ª Ação de Capacitação de Fogo Bacteriano sobre Boas Práticas na limpeza de pomares, 21 produtores de pera rocha inquiridos sobre a doença revelaram que 48% dos 5.385 hectares ficaram infetados.
Pera Rocha em risco? Fogo bacteriano “queima” produção
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O fogo bacteriano tem sido um pesadelo para os produtores da Pera Rocha, que têm sido forçados a arrancar milhares de árvores na zona do Oeste. Prejuízos acima de 45 milhões.