Se traçarmos uma linha reta entre Lisboa e Madrid, imaginária, translúcida de ideias e vontades, vamos ter um ‘caminho’ linear. Podemos ir por aí. Mas não é esse o plano. No ‘caminho irreal’ que a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas propõe nesta 5ª edição, a primazia é dada ao desvio, “ao deslocamento simbólico e à possibilidade de reconfigurar o lugar do artista e do espectador. Um caminho que não se encontra nos mapas turísticos nem nos roteiros oficiais, mas que pulsa nos corpos que criam, resistem e se deslocam, geográfica e artisticamente”. Eis o statement desta BoCA, que, mais uma vez, aposta em criações em estreia mundial, caso de Dino D’Santiago, que assina a sua primeira ópera no âmbito da bienal.
“Dino D’Santiago colaborou em projetos de outros artistas, nas últimas edições da BoCA”, explica o curador John Romão ao JE. Desta feita, seguindo a linha programática da bienal, de convidar “artistas a criar novos projetos em áreas artísticas e em formatos de que não são especialistas, quisemos prolongar esta relação com o Dino de forma mais evidente”. É a primeira vez que o artista se aventura neste género artístico, mas não está só. Romão ajudou a compor a equipa criativa, que integra o dramaturgo Rui Catalão, o maestro Martim Sousa Tavares e Solange Freitas na assistência de encenação, entre muitos outros. A ópera Adilson resgata o título ao nome do protagonista, um afrodescendente, nascido em Angola, filho de pais cabo-verdianos, que vive há mais de 40 anos em Portugal sem nunca ter conseguido obter a cidadania portuguesa.
Essa será a segunda estreia. A primeira, que abre a bienal, a 10 de setembro, traz a Lisboa Analphabet, uma obra emblemática de Alberto Cortés, considerado um dos artistas “com maior destaque na cena teatral espanhola da atualidade”. Cortés bisa nesta edição com Os Rapazes da Praia Adoro, em colaboração com o pintor português João Gabriel, que estreia em Madrid e chega a Lisboa nos últimos dias da bienal, a 25 e 26 de outubro. Mas há mais colaborações entre criadores portugueses e espanhóis. Tânia Carvalho e Rocío Guzmán são o ‘dueto’ por trás de Nossas Mãos, e Francisco Camacho assina com Elena Córdoba Uma ficção na dobra do mapa.
Outra estreia mundial aguardada com grande expectativa é Coral dos Corpos sem Norte, a mais recente criação do angolano Kiluanji Kia Henda. Uma criação que se desdobra entre o espetáculo sobre a viagem e as migrações, e uma instalação de grande impacto no MAAT, que terá três ativações performativas, de entrada livre, a 5, 12 e 19 de outubro. O Julgamento de Pelicot, trabalho conjunto de Milo Rau e da dramaturga francesa Servane Dècle, estreou em Viena e passou pelo Festival de Avignon, e assume-se como um tributo a Gisèle Pelicot, para devolver “a dignidade da voz a quem foi silenciado”.
O cinema também marca presença na BoCA através do ciclo Malamor/ Tainted Love, que decorrerá simultaneamente em Lisboa e Madrid, na Cinemateca Portuguesa e na Filmoteca Española. A curadoria é dos cineastas portugueses João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, que colocam em diálogo as suas obras com realizadores como Pedro Almodóvar, Rainer Werner Fassbinder ou John Waters. Destaque ainda para as criações de Julián Pacómio, Tianzhuo Chen e Siko Setyanto, que serão apresentadas em Lisboa, e para o ciclo Palavras e Gestos: para uma coleção performativa no Museu do Prado da autoria de Tiago Rodrigues, Patrícia Portela, Angélica Liddell e Rodrigo García, que terá lugar no Museu do Prado, à porta fechada (ver texto principal), a 27 e 28 de setembro e a 4 e 5 de outubro. ‘Spoiler alert’: a pintura Os Fuzilamentos de 3 de Maio, de Goya inspirou uma das performances.
Não há muros neste eixo Lisboa-Madrid
Artes : Resistir à desesperança, ao racismo, ao sectarismo, às injustiças, aos muros. As capitais ibéricas, qual vaso comunicante, pulsam de vida e de desvios.
