Skip to main content

G20 e Organização de Xangai disputam hegemonia mundial

Cimeiras : Ambos os blocos falam em aprofundamento de relações, mas as discórdias entre membros ficaram patentes nos encontros desta semana - tanto entre rivais históricos, como entre aliados.

Os blocos rivais do G20 e da Organização da Cooperação de Xangai (OCX) reuniram esta semana e, apesar das declarações a garantir união e aprofundamento de relações, as tensões internas entre concorrentes, no caso oriental, ou mesmo entre aliados, no grupo ocidental, ficaram bem patentes. Além desta semelhança, as cimeiras convergiram em dois pontos: os conflitos na Ucrânia e Médio Oriente, e a questão energética.
O encontro do G20, o grupo das 19 economias nacionais mais avançadas do mundo juntamente com a UE e a União Africana (excluída este ano, dado que a presidência está com a África do Sul, que está a ser castigada pelos EUA pelo caso movido no Tribunal Penal Internacional a propósito do genocídio israelita em Gaza), esteve marcado pela polémica desde o arranque. O principal motivo foi a presença do ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, na cimeira realizada em Asheville, na Carolina do Norte, EUA.
“Creio que a posição europeia é conhecida”, começou por afirmar Valdis Dombrovskis, comissário europeu para a economia, à margem do encontro. “Esta não é a altura de normalizar a Rússia”, prosseguiu. Ainda do lado europeu, o ministro das Finanças alemão foi outro dos porta-vozes do descontentamento. Lars Klingbeil falou num “sinal preocupante” com o convite norte-americano a Siluanov, admitindo que gostaria de ter visto uma posição clara dos aliados transatlânticos quanto à presença russa no encontro.
“Não confiamos na Rússia. Eles mentem constantemente e precisamos de ser muito cuidadosos ao debater com eles”, acrescentou o ministro polaco das Finanças, Andrzej Domanski.
Por sua vez, os EUA dizem não rejeitar conversações com russos. “Uma das razões pelas quais sou tão bem-sucedido é que me dou bem com toda a gente”, atirou o presidente Trump aos repórteres a propósito da presença russa.
Já Scott Bessent, secretário do Tesouro, falou em “boas discussões” no final de segunda-feira, garantindo que Washington continuará a pressionar os seus aliados para que se juntem à asfixia económica a Teerão com vista a derrubar o regime iraniano.
O portal norte-americano Axios cita uma fonte anónima no Tesouro que revela que Bessent e Siluanov discutiram o plano de paz de Washington para a Ucrânia, mas que do lado norte-americano houve a garantia que não haverá recuos nas sanções a Moscovo enquanto o conflito continuar.
Em Bishkek, capital do Quirguistão, o tom da cimeira da OCX não foi muito distinto. A cimeira de dois dias acabou na passada terça-feira com uma declaração conjunta dos dez Estados-membros do bloco que representa 43% da população mundial e pretende sinalizar uma alternativa à hegemonia ocidental. A Declaração de Bishkek fala num mundo multipolar e pede reformas à forma global de governar que permitam uma maior representatividade das nações, além de garantir que a organização irá continuar a aprofundar relações económicas e securitárias, incluindo na energia.
Precisamente a questão energética assumiu destaque, dadas as guerras na Ucrânia e Irão. Com Rússia, China, Índia e Irão reunidos, Moscovo procurou assegurar os seus aliados que tem a situação sob controlo apesar dos ataques repetidos e cada vez mais profundos de drones ucranianos, que têm diminuído a capacidade russa de refinação.
Assim, Putin terá procurado dar garantias, sobretudo ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi, que a Rússia conseguirá continuar a fornecer energia à Índia, isto apesar das dificuldades logísticas. Com os EUA a manterem uma forte presença no Mar do Sul da China e a infraestrutura iraniana devastada pela guerra, o caminho mais eficiente para Moscovo teria de envolver a China – obrigando a equilíbrios delicados entre os rivais históricos de Pequim e Nova Deli.
No entanto, as discussões bilaterais entre Putin e Xi não terão dado frutos relevantes, isto numa altura em que os russos precisam desesperadamente de assegurar estas ligações aos parceiros asiáticos.
Composta por dez Estados-membros (Bielorrússia, China, Índia, Irão, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão), a OCX tem ainda uma série de países com estatuto de observador, como a Turquia. Em Bishkek, o presidente Reçep Erdogan não perdeu a oportunidade para também elogiar a maior multipolaridade no palco internacional nos últimos anos.

Este conteúdo é exclusivo para assinantes, faça login ou subscreva o Jornal Económico