É para o estado alemão da Saxónia-Anhalt, um dos mais pequenos lander, o mais pobre deles, com um produto interno bruto (PIB) por habitante que representa 72% da média da Alemanha, que vai convergir toda a atenção. Realizam-se eleições estaduais este domingo, 9 de setembro, e, pela primeira vez, a AfD, de extrema-direita, tem uma possibilidade real de saltar a cerca sanitária que a tem contido noutros estados e no parlamento federal, o Bundestag, e chegar ao poder.
A Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha, AfD, no acrónimo em alemão) lidera as sondagens na Saxónia-Anhalt. A Poll of Polls, do “Politico”, regista 42% de média dos últimos estudos. O mais recente, do instituto INSA, divulgado a 2 de setembro, atribui-lhe 43% das intenções de voto, contra 22% à União Democrata-Cristã (CDU), 12% ao Die Linke, 7% ao Partido Social-Democrata (SPD) e 5% aos Verdes. A dúvida é saber se a AfD consegue a maioria absoluta, que se faz com 42 deputados. E as sondagens indicam que a AfD estará na fronteira.
“A vitória na Saxónia-Anhalt pode representar o princípio do fim do isolamento do partido. E uma nova era se avizinha na política alemã”, vaticina Paulo Sande, especialista em assuntos europeus e professor na Universidade Católica, ao Jornal Económico (JE).
A AfD foi fundada em 2013, motivada, muito, pela contestação aos processos de resgate dos países europeus mais afetados pela crise financeira e económica, como Portugal. Defendia o fim da zona euro, claro. À boleia da crise migratória, evoluiu para uma matriz anti-imigração, mais identitária, nacionalista e ainda mais eurocética. Na última década, foi subindo nas sondagens e crescendo nas eleições locais, regionais e nacionais, particularmente nos estados federais da antiga Alemanha de Leste. Em 2024, foi a mais votada na Turíngia, com 32,8%, mas acabou derrotada pela união da oposição. Nas eleições federais de 2025 obteve 20,8% dos votos e tornou-se o segundo partido mais votado da Alemanha.
A visibilidade trouxe custos. O Departamento Federal de Proteção da Constituição, o serviço civil de inteligência interna da Alemanha, que tem como objetivo recolher e analisar informações para proteger a ordem democrática contra ameaças internas, extremismo político, terrorismo e espionagem, classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”. Aumentou o escrutínio. Multiplicaram-se casos, escândalos.
AfD prepara-se para saltar a cerca sanitária
/
Alemanha : A extrema-direita pode ser poder num estado, pela primeira vez desde a IIGuerra Mundial. Precisa de uma maioria absoluta, que está perto. E será um teste ao sistema político.