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Continuar a guerra por outros meios

Guerra híbrida : A Alemanha acusou formalmente a Rússia por um incidente com um drone com explosivos no aeroporto de Leipzig/Halle. A UE acompanha esta escalada na tensão.

O Leipzig/Halle é o segundo maior aeroporto de carga da Alemanha e um dos maiores da Europa. Tem duas pistas paralelas de 3.600 metros, que podem ser utilizadas de forma independente, e pode operar 24 horas por dia. No ano passado, movimentou quase 1,4 milhões de toneladas. Está lá o maior hub da DHL. Registou uma média de 204 movimentos de aeronaves por dia, incluindo o transporte de passageiros. Acolhe também a base operacional do programa gerido pela NATO que permite a nove aliados partilharem o acesso a Antonov AN-124, aviões gigantes de carga. E tornou-se, depois da invasão russa da Ucrânia, em 2022, uma das principais bases da companhia de transporte pesado Antonov Airlines.
Foi dentro do perímetro do Leipzig/Halle que foi encontrado um drone, no solo, numa zona de carga de acesso restrito, junto à pista sul. Tinha acoplado PETN e Semtex, dois explosivos de alta potência também utilizados em contexto militar, e um detonador que terá falhado ou ficado danificado, impedindo a explosão. O caso ocorreu na noite de 4 para 5 de agosto.
Foi a gota de água que fez transbordar o copo na abordagem aos casos de guerra híbrida e levou a Alemanha a responsabilizar a Rússia pelo sucedido, depois de uma investigação, penalizando-a com o encerramento do consulado geral em Bona e denunciando o acordo que permitia o funcionamento da Casa Russa, uma instituição formalmente cultural, em Berlim. Moscovo ripostou mandando encerrar o Goethe-Institut em Moscovo, São Petersburgo e Ecaterimburgo.
“À medida que uma decisão militar rápida [na guerra na Ucrânia] se torna menos provável e as negociações permanecem bloqueadas, aumenta o valor estratégico das formas indiretas de coerção”, explica ao Jornal Económico (JE) Carlos Morgado Braz, coordenador da Licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Europeia. “Perturbar cadeias logísticas, testar infraestruturas críticas, aumentar os custos do apoio europeu à Ucrânia e introduzir incerteza nas sociedades que sustentam esse apoio tornam-se instrumentos particularmente relevantes. O objetivo não tem necessariamente de ser provocar grandes danos materiais. Pode simplesmente consistir em demonstrar vulnerabilidade, gerar insegurança e obrigar o adversário a gastar recursos políticos, económicos e securitários na resposta”, acrescenta.
Entre fevereiro de 2022 e o mesmo mês deste ano, o Centro Internacional para o Contraterrorismo o think tank Globsec identificaram 138 casos de operações cinéticas, ações de guerra híbrida com efeitos físicos, na União Europeia. O registo do Sahaidachnyi Security Center, mais abrangente, que inclui Europa, Estados Unidos e canadá, contabiliza 419 incidentes entre 15 de janeiro de 2022 e 31 de agosto de 2026. Os dois registos apontam para uma intensificação nos últimos meses. Uma escalada. É a continuação da guerra por outros meios.
“É uma intensificação sustentada da competição na zona cinzenta, através de ações de sabotagem, ciberataques, interferência informacional, operações contra infraestruturas críticas ou a utilização de intermediários que dificultem a atribuição direta”, diz Carlos Morgado Braz.

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