Pouco se sabe ainda sobre o novo instrumento proposto pelo Governo para ter participações estratégicas em empresas, mas tanto a Associação Empresarial de Portugal (AEP) como os economistas contactados pelo Jornal Económico (JE) deixam avisos sobre os múltiplos riscos que esta opção implica. Desde logo, dizem, deixa a porta aberta à “interferência política”.
Luís Montenegro prometeu no mês passado, durante o congresso do PSD, um fundo que permita a “intervenção do Estado em setores estratégicos”. O primeiro-ministro deu o exemplo da energia, mas não descartou “a banca, as comunicações ou mesmo a gestão de infraestruturas aeroportuárias se os concessionários das mesmas não cumprirem as suas obrigações”.
Mais nada se soube oficialmente desde então, mas o líder social-democrata sempre foi adiantando aos congressistas que o instrumento vai agregar “as participações já detidas pelo Estado e outras que venham a ser consideradas estratégicas e com retorno financeiro para a administração pública”.
Montenegro não detalhou por que razão quer este instrumento, ainda que tenha referido que serve para “efetivar a soberania nacional” — não explicou em que sentido — e garantir “poupança para as gerações futuras”.
Mas será que esta é a melhor forma de deixar ativos para as próximas gerações? “É tão romântico que eu desconfio disso”, diz o economista João Duque ao JE.
É apenas uma de várias dúvidas, como sublinha Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP: “Nesta fase, ainda existe escassa informação”, pelo que “é prudente aguardar pelo conhecimento de aspetos essenciais, designadamente dimensão, política de investimento, modelo de governação, critérios para a identificação das empresas consideradas estratégicas e que falhas de mercado pretende resolver”, respondeu ao JE.
E as dúvidas não ficam por aqui. Relativamente à política de investimento, o economista João Duque concretiza: “Qual será a participação do Estado nessas empresas em que vai entrar?” Não há, para já, uma resposta pública, nem certezas sobre como serão financiadas as participações, ainda que uma fonte governamental tenha dito ao jornal Eco, em junho, que serão posições minoritárias financiadas pelo Orçamento do Estado.
Haver novo financiamento pressupõe novas participações – o que bate certo com a parte do discurso em que Montenegro refere outras empresas “que venham a ser consideradas estratégicas”. Não é, porém, o que o economista António Nogueira Leite tem ouvido. “O Governo foi dando mais algumas informações e eu percebi que a intenção deles é mais um parqueamento das posições existentes”, afirmou ao JE. “Parece-me que têm uma ambição muito mais modesta do que inicialmente parecia. Mas não tenho provas – foi apenas referido por pessoas próximas do Governo, que me contactaram”. O exemplo dado ao antigo secretário do Tesouro e das Finanças foi o da Galp, em que o Estado detém já 8,24%, mas que tem em curso uma fusão com a espanhola Moeve. “Há o tema da refinaria que, aparentemente, preocupa o Governo”, diz Nogueira Leite.
Por outro lado, fonte governamental diz ao Jornal Económico que este fundo é também visto dentro do executivo como uma resposta à preocupação crescente de Bruxelas relativamente à soberania sobre ativos que hoje estão sob controlo de empresas chinesas, ou em que há, pelo menos, participações qualificadas. É o caso, em Portugal, da REN, que gere toda a rede elétrica nacional. Será que um fundo soberano abre caminho para a que o Estado volte à REN com uma posição minoritária?
Fundo soberano Há risco de interferência política nas empresas, alerta AEP
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Ainda não é completamente claro o que justifica a criação de um fundo soberano para participações em empresas estratégicas, mas a decisão do Governo está a gerar desconforto. A Associação Empresarial de Portugal e economistas ouvidos pelo JE apontam vários riscos.