Em janeiro, Donald Trump afirmou que queria comprar um “pedaço de gelo, frio e mal localizado”. Referia-se à Gronelândia, mas enganou-se e por quatro vezes chamou-lhe Islândia. Foi noutro contexto, marcado pela bravata expansionista do presidente dos Estados Unidos, antes do início da guerra com o Irão.
Como em todo o mundo, o discurso de Trump foi ouvido em Reiquiavique. A Islândia é visceralmente independente. Participa, coopera, mas mantém-se à parte. É membro da NATO desde 1949, apesar de não ter exército, já participa no mercado único da União Europeia (UE) através do Espaço Económico Europeu e integra a zona de livre circulação de Schengen, mas mantendo a sua autonomia. Aquele discurso na reunião do Forum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, levou a que fosse ressuscitada a possibilidade de voltar a ser negociada a adesão à UE. É isso que os cerca de 270 mil eleitores islandeses vão decidir amanhã, sábado, 29 de agosto. Apenas isso, se a Islândia deve voltar a negociar a entrada na UE.
“Esta é uma oportunidade, não uma decisão final”, sublinhou a primeira-ministra, Kristrún Frostadóttir.
“A relação de Reiquiavique com Bruxelas é, na falta de melhor palavra, turbulenta”, diz ao Jornal Económico (JE) Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais da Universidade Lusíada do Porto. “A Islândia sempre usou o isolamento geográfico, como um motivo político para colaborar sem integrar a UE”, explica.
Em 2009, durante a violenta crise das dívidas soberanas que assolou o continente europeu, a economia islandesa afundou 6,5% e iniciaram-se conversações para uma possível adesão. A recuperação económica, a partir de 2011, e a estabilidade financeira alcançada, alteraram os pressupostos. Com a eleição de um governo de centro-direita profundamente eurocético, em 2013, o processo tornou-se inviável e foi formalmente encerrado em 2015. Donald Trump, e o novo quadro geopolítico, reabriram-no. Mais exatamente, levaram o governo liderado por Kristrún Frostadóttir, saído das eleições legislativas de novembro 2024, a cumprir uma das suas promessas eleitorais convocando um referendo nacional para decidir a reabertura de novas negociações conducentes à adesão da Islândia à UE.
Sim, mas…
As sondagens mais recentes apontam para uma vantagem do Sim, que conquistará entre 51% e 54% dos votos. Uma margem muito curta e um indício de um país dividido.
“Se o Sim vencer no referendo será apenas o início de um processo de negociação longo e para que se concluam as negociações sobre o setor das pescas, que prometem ser tensas, belicosas e polémicas”, diz Tiago André Lopes.
A Islândia já concluiu 11 dos 33 capítulos que compõem as negociações de adesão. Se a negociação avançar, Bruxelas espera que o processo esteja finalizado dentro de um ou dois anos, dado que o país já está profundamente integrado no mercado único europeu.
Os defensores da adesão apontam como vantagens a possibilidade de melhor responder à agressividade de Donald Trump, também à maior imprevisibilidade global. “O sistema internacional com que vivemos desde o final da II Guerra Mundial está em crise”, apontou a ministra dos Negócios Estrangeiros, Porgerður Katrín Gunnarsdóttir, no início deste ano, acrescentando que uma cooperação mais profunda com a UE era “uma variável fundamental” para salvaguardar os interesses islandeses.
Na verdade, a Islândia não teria muito a perder com a entrada para o maior bloco económico mundial. Com exceção de um ponto, da relação económica e científica de Reiquiavique com Pequim. Foi o primeiro estado da Europa a assinar um acordo de comércio livre com a China e tem uma posição relevante na chamada Estrada Polar, a nova rota comercial pelo Ártico, integrada na Rota da Seda. Aliás, para a UE é interessante ganhar maior peso no Atlântico Norte tendo em conta estes desenvolvimentos.
Depois, claro, há a questão da pesca. A Islândia é um gigante piscatório, com uma indústria equivalente a 30% das capturas registadas pelo conjunto dos Estados-membros da UE. Seria líder, ultrapassando Espanha, que representa 21%, e a França, com 15%.
Se o Não sair vitorioso, poderá tornar-se um problema para a União Europeia, que volta a mostrar não ter capacidade de atração. “Os fiascos na adesão da Macedónia do Norte, o desinteresse da Geórgia e a ausência de progresso da Albânia são motivos de sobra para ter mais cautela”, avisa Lopes. “Se o Não for o vencedor ter-se-á a sedimentação de um dos argumentos mais fortes dos eurocéticos: a população não gosta da União, que é um clube de elites e de classes média-altas urbanas que beneficiam de forma assimétrica da existência da UE”, acrescenta.
A Noruega fez um referendo similar em 1994 que terminou com a vitória do Não, com 52%. Se a Islândia votar Não, os eurocéticos ganham mais um trunfo político.
As gafes de Trump que empurram a Islândia para a UE
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Geoestratégia : Islandeses vão decidir se querem voltar a negociar a entrada na UE, pela segurança. O debate tem sido feito em torno da economia e das pescas. O Sim lidera, mas por pouco.