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Alemanha “em queda livre” vive pior crise desde o pós-Guerra

Produção industrial continua abaixo do pré-Covid, apenas dois trimestres viram crescimento positivo nos últimos dois anos e as projeções não são as mais animadoras, arriscando prolongar a atual recessão em 2026. Governo não está a fazer o suficiente, acusam os empresários do país.

Os avisos vinham de inúmeras vozes e ouviam-se há largos trimestres, mas o mais recente é de peso: a Federação de Indústrias Alemãs (BDI), a maior confederação industrial germânica, vê o motor económico europeu na maior crise desde o pós-guerra e acusa o governo liderado por Friedrich Merz de inação perante o que classificam de “queda livre” da maior economia do bloco. O modelo de crescimento das últimas décadas está esgotado perante o fim da energia barata, a concorrência chinesa e a política tarifária dos EUA e, com a Europa em transformação, a ausência do fulgor alemão faz-se sentir.
A Alemanha atravessa “a crise mais profunda desde a fundação da república federal”, afirmou Peter Leibinger, presidente da BDI, que acusa o governo de Merz de “não responder com a determinação necessária”. Para o representante industrial, o país precisa de “uma inversão de política com prioridades claramente definidas para a competitividade e crescimento”, o que incluiria um conjunto ambicioso de reformas.
Os dados são, de facto, preocupantes. Além de ter registado apenas dois trimestres de crescimento positivos nos últimos dois anos, o consumo privado contribuiu negativamente para a leitura mais recente, quando a economia voltou a estagnar em cadeia, tal como as exportações, outrora o principal motor do crescimento alemão. Mais, a produção industrial está em contração há quatro anos e a BDI projeta nova queda de 2% no próximo ano, deixando o país cada vez mais longe do pico do sector secundário registado antes da pandemia.
As razões desta crise são já amplamente conhecidas. Anos de desinvestimento, uma confiança exagerada num modelo exportador, a concorrência industrial cada vez mais sofisticada vinda da China, o fim da energia barata vinda da Rússia e, por fim, a escalada tarifária dos EUA resultaram no regresso do ‘doente da Europa’, designação que já havia sido usada para a Alemanha no início do século. Ainda assim, o cenário na altura não era tão preocupante, dado que o crescimento entre 1988 e 2005 chegou a 1,2%, bastante acima da atual estagnação.
E “ao debater [a ideia de] ‘crescimento zero’, devemos considerar os trabalhadores industriais que perderam o emprego e o peso que estes anos de estagnação colocaram nos sistemas de segurança social”, escrevem os analistas do banco ING, lembrando a onda de despedimentos que assolou o sector industrial alemão, com grandes nomes como a VW, Bosch ou Thyssenkrupp a não conseguirem evitar os lay-offs. Segundo uma análise do BNP Paribas, o emprego na Alemanha caiu 220 mil postos, com destaque para os sectores industrial e da construção.

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