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A rota do Cabo que trouxe esperança para Sines até chegarem as tormentas

O Alentejo e o Suez têm uma relação antiga. Em 1967, quando Israel e os países árabes voltaram à guerra e o canal foi encerrado, o país tirou proveito. Mas durou pouco.

Para os amantes de História, talvez seja um “deja vu”. Se Belmar da Costa, representante dos agentes de navegagação de Portugal (Agepor), e Ruben Eiras, secretário-geral do Fórum Oceano, tiverem razão, o porto de Sines vai sentir o impacto da normalização no Suez. Mas não é a primeira vez que o encerramento daquele canal traz benefícios à costa alentejana, e a sua reabertura amargos de boca — com as devidas distâncias, porque os contornos são agora bem diferentes.
Os livros “A grande transição da economia portuguesa”, de António Manzoni e José Félix Ribeiro, e “O Estado Novo”, assinado por este último economista, detalham a emergência e queda da chamada “vaga da Rota do Cabo”, que teve início após 1967, o ano da terceira guerra entre Israel e os países árabes.
É desse conflito que decorre “uma mudança na configuração das rotas de fornecimento do petróleo do Golfo Pérsico para a Europa”, constatam os dois economistas. E o regime de Marcelo Caetano quis aproveitar a oportunidade.
No âmbito da nova vaga, foram construídos os estaleiros de reparação de petroleiros da Lisnave, em Setúbal, “a que se seguiram os estaleiros para a construção dos maiores petroleiros da época a realizar na Setenave”, escreve Félix Ribeiro. Além disso, o porto de Sines começou a ser construído em 1973, bem como “um complexo de refinação de petróleo e indústrias petroquímicas autorizado para Sines, acompanhado pela expansão da petroquímica a norte”. A par destes investimentos, consolidous-se ”uma indústria metalomecânica pesada articulada com o fabrico de equipamento electromecânico para centrais eléctricas e de material ferroviário”.
Só que foi sol de pouca dura. No início da década de 70, “o choque externo que afetou a economia nacional resultou, nomeadamente, na “redução da relevância geoeconómica de Portugal como entreposto de circulação do comércio internacional”. “O rápido esgotamento do potencial estratégico da ‘vaga da Rota do Cabo’ no processo de modernização e industrialização da economia portuguesa, por um lado, reduziu o seu espaço de internacionalização e, por outro, gerou destruição de capital e aumentou o risco de insolvência associada à rápida desvalorização dos elevados investimentos efetuados pelos grupos empresariais nacionais nestes grandes projectos”. Tinham sido “alimentados por uma nova vaga de internacionalização”, mas que “se esfumou nos conflitos geopolíticos do Médio Oriente”.
Este foi um dos “motores que dinamizaram o processo de abertura da economia portuguesa ao exterior”, entre 1965 e 1973. Até gripar. Ocanal do Suez regressaria à normalidade em 1975, já com Portugal em democracia. OPorto de Sines só entraria em exploração em 1978.

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